Work in progress, reformulações, materiais, luz e ambiguidades no espaço cénico de Figurantes. Transcrição de uma conversa entre Pedro Tudela e João Mendes Ribeiro*, editada por Cristina Carvalho e Susana Morais. Teatro Nacional São João, 24 de Novembro de 2004.

João Mendes Ribeiro Quando fiz uma entrevista ao Ricardo Pais, em 1998, perguntei-lhe se ele era influenciado, na construção de um espectáculo, por outras formas de arte, nomeadamente as artes plásticas. A resposta foi “evidentemente que sim”. Mas acrescentou: “Julgo que é sobretudo aquilo que influencia os cenógrafos e os figurinistas que acaba por determinar a visualidade do espectáculo. Ainda ontem estava a ver uma exposição de Thomas Schütte, na Fundação de Serralves, e pensei nas coisas fantásticas que ele poderia fazer em teatro. A obra dele tem imensa teatralidade. Apesar de eu me sentir mais próximo, em termos de visão do mundo e em termos estilísticos, de certos artistas plásticos do que dos cenógrafos, mesmo daqueles com quem trabalho, quando os trazemos para o palco as coisas mudam completamente de figura. É uma contradição técnica difícil de resolver. Ainda assim, tenho muita vontade de trabalhar com artistas plásticos e é natural que muito brevemente o venha a fazer, ainda que numa perspectiva menos estritamente cenográfica e mais performativa, de instalação”. Enquanto artista plástico, achas que o teu trabalho em Figurantes se aproxima mais dessa ideia “performativa” do que de uma ideia cenográfica?

Pedro Tudela Curiosamente, este trabalho surgiu com uma orientação mais performativa, próxima da instalação. Mas acabou por ser um trabalho cenográfico, sobretudo em relação à organização do espaço: por um lado, a divisão em duas partes e, por outro, porque os elementos que circulam também apontam para a vertente mais cenográfica. É curioso que o meu interesse pelo espaço tenha começado no momento em que incluí a matéria sonora nos meus projectos de artes plásticas. Mesmo quando trabalho enquanto cenógrafo, não consigo afastar-me desse primeiro impulso e, talvez por isso, o conceito de instalação está sempre muito presente. Vejo o trabalho em Figurantes quase como um prolongamento da exposição que fiz em Serralves, cujo suporte era o próprio espaço, o trabalho de Siza Vieira, a ideia de museu, Serralves à volta de Serralves. Porque é que faço um paralelismo entre esse tipo de trabalho meramente pessoal e Figurantes? Porque em ambos os casos é a ideia de palco que condiciona o trabalho de cenografia.

JMR Este texto foi escrito por encomenda, em função dos intérpretes e com sugestões do encenador. Também foi assim em relação à construção da cenografia, ou seja, ela foi-se redesenhando enquanto o texto ia sendo reescrito na sala de ensaios?

PT Absolutamente. Acompanhei o processo desde o início, e o trabalho de cenografia, apesar de ter começado antes do texto estar concluído, sofreu alterações no decurso dos ensaios. Gosto muito da ideia de work in progress, muitas questões foram crescendo com o texto e com os ensaios. Não quero com isto dizer que o resultado traduza o processo de trabalho, e que não possam fazer-se depois alguns acertos, mas apenas ao nível do detalhe.

JMR O que torna este trabalho muito particular. Durante os ensaios de Arranha Céus [1999], em conversa com o Jacinto Lucas Pires, achámos interessante a possibilidade de inverter a ordem das coisas: encomendar um texto para um cenário preexistente, já construído.

PT Não foi o caso, aqui.

JMR Não, o que quero dizer é que essa relação de cumplicidade entre o cenógrafo e o autor pode constituir um desafio muito estimulante. Assisti ao ensaio geral de Figurantes e, apesar de sentir que precisava de ver outra vez o espectáculo, a ideia com que fiquei é que este poderia ser claramente um espectáculo sem cenografia. O espaço cénico poderia ser exclusivamente construído através da luz. Desenhar a luz, trabalhar sobre a escuridão, com o negro e, de certa forma, com o vazio.

PT É verdade. Aliás, o projecto foi-me apresentado praticamente dessa maneira. O próprio texto refere imediatamente as luzes.

JMR E isso acontece do princípio ao fim.

PT Exacto. E depois de ler o texto mantive essa ideia. Felizmente, tive uma belíssima relação com o trabalho do Nuno Meira, fomos discutindo várias possibilidades. Em alguns momentos parecia-me que a luz poderia ter uma influência determinante na progressão e na separação do espaço cénico. Fui falando com o Nuno e acho que o resultado final traduz uma reflexão conjunta.

JMR De alguma forma constróis uma parede de luz, habitada pelos actores, que constitui um elemento de divisão do palco. Sentiste essa necessidade de marcar dois espaços?

PT Senti claramente essa necessidade de marcar profundidade, sobretudo por causa do texto e das diferenças entre as situações que estão relacionadas com a cena, com o teatro, com a representação, e as que têm que ver com os momentos de espera, naquele espaço que é relativamente ambíguo e, como tal, pode ser povoado de diferentes maneiras. Sinto que há uma clara separação entre essas duas situações, por muito que se misturem ao longo da peça.

JMR Penso que a parede acaba por introduzir essa ambiguidade, criando uma ilusão que é dada pela perspectiva acelerada (parede e pavimento) e pelo uso de materiais transparentes na delimitação dos espaços. A transparência, articulada com o desenho de luz, permite criar variações significativas no espaço cénico. A parede pode funcionar como fundo de cena, como limite de espaço, como marcação de um outro espaço que está para lá, e servir ainda, em determinados momentos do espectáculo, como uma parede habitada. Apesar de ser construída em material transparente, tem espessura e permite ser habitada pela luz. Por outro lado, a parede em forma convexa sugere um espaço interior para lá dela. No entanto, o texto remete-nos para um lugar indeterminado, terra de ninguém, um “espaço zero”, que não é interior nem exterior…

PT Mas, na realidade, o que se vive para lá da cortina é em tudo idêntico ao que existe do lado de cá.

JMR Apesar de tudo há uma diferença.

PT É verdade, mas tinha que utilizar essa curva para conseguir o efeito de perspectiva em determinadas marcações. Em todo o caso, a ambiguidade do espaço mantém-se até ao final do espectáculo, os actores não sabem bem onde estão.

JMR Há outras duas características que também me parecem interessantes neste contexto: a abstracção do cenário e a ausência de escala. Apenas uma parede contínua transparente, que se atravessa em qualquer ponto, sem qualquer marcação de aberturas que remetam para a escala do actor/habitante do espaço cénico.

PT Era muito importante que isso acontecesse. As várias aberturas da cortina não forneciam nenhuma espécie de pista que indicasse qual era a passagem para o outro lado, deixando inclusivamente em aberto a possibilidade de existir ou não esse tal lado de lá. Não sei se notaste, mas é curiosa a influência da luz na projecção do reflexo do plano mais próximo em relação ao plano mais afastado. Isto remete-nos para o início da conversa: este trabalho acabou de facto por ser uma cenografia e não propriamente uma instalação. É óbvio que é influenciado pelo meu trabalho habitual, e a ideia do Ricardo era precisamente essa: convidar alguém que desenvolvesse um trabalho ligado às artes plásticas e adaptá-lo ao teatro.

JMR Há uma frase do texto que sintetiza bem o teu trabalho cenográfico: “A luz artificial caindo, cruzada de reflexos de coisas longe e de coisas próximas”.

PT Essa ideia de espaço foi explorada através de elementos que rasgam por vezes a cena, como os objectos com pequenos microfones que projectam o som noutro tipo de registo. Nem sempre a imagem do objecto é utilizada em pleno, isto é, os sons não estão obrigatoriamente a ser debitados através daqueles objectos, mas é a ideia do próprio objecto que traduz essa progressão do som, que se projecta lá para o fundo ou vem para mais perto. Ora, a luz também se comporta mais ou menos da mesma maneira. Felizmente, repito, o entendimento com o Nuno resultou e o trabalho dele permitiu completar determinadas situações.

JMR Também aqui houve um cruzamento perfeito.

PT Já tinha trabalhado com o Nuno num outro projecto, Rua! Cenas de Música para Teatro [2003], e rapidamente percebi que era uma pessoa com quem me podia entender muito bem. Nessa altura, suspendi um painel que remetia para aqueles outdoors enormes, cuja superfície foi coberta com cartazes que contavam a história do TeCA antes da reabertura. Elaborei uma composição a partir de papéis rasgados, na qual foram sendo projectados desenhos em tempo real. O Nuno conseguiu fazer com que esse painel, que era até muito pictórico, se tornasse muitíssimo mais leve, diria mesmo que ficou completamente a flutuar. Ele conseguiu projectá-lo de forma a torná-lo compatível com o espaço onde os músicos estavam.

JMR O Ricardo Pais diz que nos últimos anos houve um crescente cruzamento entre a cenografia e as artes plásticas “performativas”, que se traduziu numa nova austeridade que tem marcas fortes, por exemplo, na arte pobre, na arte minimal ou mesmo na arte conceptual.

PT A atitude é a da instalação, ou seja, de trabalhar utilizando várias linguagens consideradas multimédia. Há imensos casos que confirmam essa realidade. Estou a lembrar-me, por exemplo, dos trabalhos de Christian Markley, em que ele utiliza a ideia das matérias e aplica-as enquanto conceito no próprio espaço. Esse pingue-pongue entre as influências que as artes plásticas podem ter nos trabalhos relacionados com o espaço cénico, sofreu de repente uma reviravolta, passando alguns artistas plásticos a ser influenciados pela ideia de espaço que é povoado, que tem uma determinada narrativa, ou seja, que tem tudo que ver com a cenografia. Mas acho também que esse cruzamento não pende para nenhum dos lados, pode ter diferentes ecos.

JMR Enquanto artista plástico, porque é que te seduz fazer trabalho de cenografia?

PT Como artista plástico, procuro não ficar preso a nenhum tipo de registo ou de produção. Gosto imenso de mexer nos materiais, de perceber os materiais. Não se trata de pilhagem, mas aproprio-me de matérias tão diferentes como a ideia da cor, a ideia de um bocado de madeira, de um som. Quando me aproprio desses elementos estou a adaptá-los ao meu trabalho, mas sem ter a necessidade absoluta de os descaracterizar por completo, tratando-os como matéria moldável, adulterando-lhes a identidade. É engraçado se relacionarmos isto com o teatro, porque na cenografia isso nem sempre acontece. Contudo, no meu trabalho assumo por completo os tipos de materiais que utilizo, por vezes tenho até a tendência de os enaltecer, porque é também assim que funciono enquanto artista plástico. O trabalho em cenografia seduz-me porque há uma série de coisas envolvidas: o texto, um espaço, a cena. E há ainda o lado efémero do teatro, que se pode repor e refazer e que, apesar das récitas se repetirem, não tem de todo um carácter múltiplo como a gravação de música em CDs. O teatro representa a possibilidade de estar a utilizar um espaço e de trabalhar com pessoas com diferentes ideias. Não se trata de ser o homem dos sete instrumentos. As coisas que vou fazendo têm uma ligação entre si, uma marca pessoal, mas, obviamente, também sofrem a influência de tudo o que me rodeia, neste caso das várias pessoas que trabalharam neste espectáculo. Felizmente, o meu instrumento de trabalho é tão democrático e tão transportável que me permite ir para o local de ensaios, trabalhar e levar para casa momentos que foram assimilados e produzidos durante os ensaios.

JMR Como já disse, a leitura que fiz do texto levou-me a pensar que este era um daqueles espectáculos onde se podia trabalhar só com a luz, mas acho que o teu trabalho acrescenta algo, porque reforça a ideia de ilusão, gera ambiguidades e tensões. Por outro lado, o carácter não-realista do cenário remete-nos para um espaço vago, sugerido no texto.

PT A abstracção do cenário e, mais uma vez, a influência do desenho de luz, porque não há grandes mudanças de espaço através da mutação e rotação dos objectos.

JMR Convém dizer que este texto é muito difícil, tem muito pouca acção, ao contrário de Arranha Céus. A solução que encontraste dá alguma dinâmica ao espaço. A parede em diagonal acentua essa dinâmica, dilatando o espaço cénico. Também a escolha do material foi definitivamente acertada. O plástico tanto é transparente, sublinhando a ideia da parede de luz, como pode ser perfeitamente opaco e delimitar dois espaços. Para além disso, é ainda possível habitar a sua espessura, “estar entre”.

PT Ainda bem que sentes isso, porque houve essa dupla intenção. Mas é engraçado que refiras esse terceiro plano, o “entre paredes”, que o Ricardo soube aproveitar muito bem.

JMR As cadeiras estão desde o princípio.

PT Sim, desde o início.

JMR Vê-se que há ali uma relação muito forte com as cadeiras, que funcionam como uma muleta para os actores, e com as quais eles contracenam. Há uma espécie de coreografia com as cadeiras que tem uma enorme importância no princípio, mas que vai desaparecendo.

PT Há uma altura em que, apesar das cadeiras terem um protagonismo muito grande, passam a ser quase um prolongamento do comportamento das personagens, são como que atitudes delas próprias.

JMR Estão como que coladas aos actores. As cadeiras estão associadas ao movimento e às marcações, não estão lá na qualidade de adereço, mas associadas aos corpos dos intérpretes.

PT Daí a tendência para as tornar um pouco mais orgânicas. Aquelas cadeiras não foram desenhadas por mim – é mais um daqueles casos em que me apropriei de alguns objectos –, alterei-as no sentido de as tornar mais orgânicas.

JMR São quase como que uma extensão do corpo.

PT E daqui resulta a importância dos materiais: se elas fossem de um material mais nobre, o efeito seria outro.

JMR Distanciava.

PT Exactamente.

JMR Parabéns, gostei muito.

PT Eu já não consigo distanciar-me o suficiente...

* João Mendes Rodrigues é arquitecto e cenógrafo (assinou a cenografia de Arranha Céus, de Jacinto Lucas Pires, encenação Ricardo Pais/TNSJ/1999). Lecciona a disciplina de Projecto do Departamento de Arquitectura da Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade de Coimbra. Encontra-se neste momento a desenvolver a investigação para dissertação de Doutoramento sobre o tema “Espaço Cénico, Arquitectura”.