Na galeria Canvas, no Porto, Pedro Tudela apresenta "Frágil", uma exposição em que o artista parte de um conjunto de situações e sinais ligados a uma ideia de fragilidade para construir uma mostra onde se sublinha o sentido transitório da vida.

Autor de uma obra que se move entre a pintura e os meios multimédia, Pedro Tudela continua a construir um percurso pautado por questões de teor existencial - o nascimento e a morte são mesmo os temas centrais de uma obra que se manifesta através de um contínuo problematizar do corpo e das suas metáforas. Na exposição actualmente patente na galeria Canvas, o artista parte de um conjunto de situações e sinais ligados a uma ideia de fragilidade para construir uma mostra em que sublinha o sentido transitório da vida.

A mostra é composta por quatro momentos. Quando o espectador entra na galeria é confrontado com uma escultura sonora construída a partir da junção entre um sinal de trânsito e várias colunas minúsculas que povoam o espaço com um ruído de electricidade estática. A placa é assim uma espécie de aviso a quem entra, pois, para além do som que se escuta ser idêntico ao emitido pelas máquinas de detecção de radioactividade, ele personifica também, no Código de Estrada, a noção de obstáculo.

Se o olhar se prolongar para o interior da Canvas, irá descobrir uma série de formas rectangulares, negras, que, devido à regularidade da sua montagem, sugerem a presença de uma passadeira ou, mais concretamente, do negativo desta. A aproximação revela tratar-se antes de uma série de pinturas negras, que ostentam o processo da sua feitura, ou seja, as camadas necessárias para se obter o resultado final - e aqui a ideia é fazer passar, em imagens obtidas a partir de uma perspectiva aérea, uma série de indícios e sugestões relacionados com os conteúdos da exposição, sobretudo os conceitos de percurso e escapatória.

No limite da galeria, e sublinhando a série pictórica, Pedro Tudela instalou um televisor onde se pode observar, em "loop", um vídeo que narra infinitamente uma viagem de um automóvel através de um túnel. Esse trajecto sem saída é também aquele que se imagina terminar num clarão luminoso - muitos daqueles que foram dados como mortos e voltaram a respirar descrevem essa experiência como a travessia de um túnel que desagua numa luz branca (vr "Valsa Lenta", de José Cardoso Pires, por exemplo).

Diante das pinturas, o artista instalou uma série de fotografias sonoras que, uma vez mais, nos enviam para os temas que atravessam a exposição. Neste caso, as imagens e o som são captados directamente - as primeiras no IP5, estrada que liga o Porto a Viseu, duas cidades importantes para o percurso de Tudela, como se verificou na mostra "Target" (1999, Círculo de Artes Plásticas de Coimbra). É neste conjunto de trabalhos que a mostra se resolve: de facto, cada travessia é feita de soluções provisórias. E para cada emergência é sempre necessário uma escapatória. Para que o retorno se faça em segurança.

A exposição constitui também uma metáfora acerca da solidão do artista. Quem a visita sente certamente que a obra de Tudela se distancia cada vez mais do corpo para se ocupar daquilo que sobrevive na memória. Esta é, portanto, uma mostra que é preenchida de lembranças que custam a cicatrizar.