A Estrada

A não-fixação do humano e, em particular, a impermanência do indivíduo contemporâneo têm sido desde o início, um dos mais afirmados motivos no trabalho de Pedro Tudela que encontra na ideia de partida ou na imagem da estrada metáforas de singular eficácia e plasticidade permanentemente reajustadas. A via rápida de Frágil é, ainda, a mesma estrada tortuosa e clandestina do êxodo popular, na partida com destino incerto do Portugal Emigrante(1). Esse movimento de abalada é o mesmo representado pelo alvo gigante pintado na Fortaleza de Sagres(2), lugar simbólico do término das terras portuguesas e início das aventuras marítimas de quinhentos. A mesma IP 5 que se afasta de Viseu(3), num propositado investimento de distância relativamente à cidade natal de Tudela. E o mesmo movimento em direcção ao exterior, por meio da hiperreceptividade do olhar estrangeiro, presente na instalação pt12072001rj(4).

Trata-se sempre da partida. Trata-se sempre da estrada, do trânsito ou da viagem. Movimento que não pressupõe, contudo, qualquer ponto de chegada, antes uma circularidade ad aeternum ou uma concentricidade evocada desde os primeiros trabalhos(5). A animar esse andamento, encontramos ao longo do percurso de Pedro Tudela, a marcação preocupada de centros de gravidade muito específicos e a miná-lo, pontos de sucção que sujeitam o olhar a uma inelutável força centrípeta.

Esse projecto que visa a absorção do olhar do espectador descobrirá, no início da década de 90, a importância do som no concurso para a produção de um olhar táctil. Mute... Life(6), primeiro exercício de Tudela na convergência da música e das artes visuais, cria uma superfície armadilhada pela alternância entre a pintura barroquizante e os espaços vácuos. Desde aí, o caminho tem sido o de uma progressiva investida na absorção das estruturas sensitivas do observador. As cadeiras com altifalantes embutidos nas costas e assento de Série Z(7) são disso um exemplo claro. O olhar dilui-se no conjunto de estímulos a que é submetido e não se fixa - imerge sem deixar de circular.

O Acidente

A concentricidade de que acima se falou e de que Tudela fez e continua a fazer uso, alude a um alargado corpo de imagens possíveis, mas as que nos assaltam com mais frequência são, desde Stereo: Even Flowers Can Hear You(8), a da retina ocular, da coluna de som e do alvo. A primeira e a segunda serão minuciosamente exploradas em Phase 3 Eye Can See(9), num processo de desubjectivização que interroga a mecanicidade do olhar, o rigor que é capaz de emprestar à observação e o modo como se relaciona com memória biográfica (visual, mas não apenas) do próprio autor.

A terceira imagem intuída, o alvo, consubstancia-se e explicita-se em Target(10). O alvo (lacerado por perfurações semelhantes às de balas), emitindo ora o som do disparo de uma arma de fogo ora a contagem decrescente anterior ao início de um filme no cinema, coloca face-a-face dois lados da mesma moeda: a racionalidade (a exactidão cirúrgica da técnica e, por conseguinte, das imagens) e o acidente (que integra a falha, o acaso e o inaudito). José Bragança de Miranda explica, num contexto próximo deste, que “nunca houve real, a não ser como catástrofe da experiência; como poderíamos replicá-lo ou hiperrealizá-lo? O que fazemos é realizar imagens, velho movimento que alimenta a metafísica moderna.(11)” e, mais adiante, citando Mallarmé remata que “um lance de dados jamais abolirá o acaso.”

A ideia sugerida de acidente é introduzida, então, na obra de Pedro Tudela(12), pela procura de espaços efectivos de realidade. No movimento desenhado em direcção ao catastrófico e numa certa torção relativamente ao (ab)uso da imagem, Frágil revela-se um projecto de plena maturidade. Tudela adopta um gesto que destila o excesso e preserva o primordial.

A Mise em Abíme de Toda Obra

A construção de Frágil assenta em dois pilares essenciais que, ainda ecoam o projecto de Phase 3 Eye Can See, mas que se relacionam de forma mais directa com o corpo de questões suscitado por Target e, de modo mais subterrâneo – mas talvez por isso, particularmente gratificante – com a performance Still de Pedro Tudela acompanhado pelos Mute Life Departement na Fundação de Serralves, em 1998.

Se de Phase 3 Eye Can See persiste a interrogação em torno das questões da montagem (coincidência, incoincidência e multiplicidade de perspectivas), do olhar mediado e da percepção aparelhada, do flâneur e da adesão distraída, o conjunto das 11 pinturas enegrecidas de Frágil remetem para a sequência final de Still. Vindo de um outro espaço, onde havia “actuado”, limitando os espectadores a seguirem a situação por projecção vídeo a partir de imagens recolhidas em tempo real por uma câmara de vigilância instalada naquele espaço, Tudela termina por surgir no espaço “real”, passa por entre o público, dirige-se ao ecrã de projecção e, recorrendo a uma grande trincha e tinta preta, cobre progressiva e energicamente, toda a área anteriormente branca. No final, resta apenas um espaço mínimo no canto superior direito, por pintar, de forma a que se consiga ainda ler a palavra Still. O blackout não é, afinal um encerramento definitivo, senão uma suspensão, a cristalização de um conjunto de dúvidas e vontades.

A série de pinturas negras de Frágil (subscrito pelo vídeo que repete, em loop, a imagem que se oferece a um condutor que atravessa o interior de um túnel) reenvia-nos para o momento final daquela performance. Também nestas pinturas é suspenso o momento da interrogação, numa situação de bifurcação. Seja essa bifurcação a nervura de uma folha extraída do mundo natural (tão tido em conta na pintura do autor, ao longo da década de 80) ou a vista aérea de uma estrada que se divide, o negro anuncia, como em Still, o fim das imagens, sobrando apenas as suas qualidades residuais ou, pelo contrário, o seu carácter indicial.

Por tudo isto, Frágil pode ser entendido como uma revisitação, reavaliação e reescrita dos principais capítulos e elementos estruturantes de quase vinte anos de actividade de Pedro Tudela. Mas a economia imagética e referencial a que se circunscreve, resulta numa mise en abîme de toda a obra do autor e, num rasgo de singular lucidez, fala-nos afinal, daquele que seria o acidente lapidar da contemporaneidade: o acidente das imagens.

(1) Portugal Emigrante, exposição individual, Galeria Roma e Pavia, Porto, 1986 (2) Sagres 89, exposição colectiva, Fortaleza de Sagres, Sagres, 1989 (3) Target, exposição individual, Círculo de Artes Plásticas de Coimbra, Coimbra, 1999 (4) Amores Interpostos, exposição com Rubens Azevedo, Espaço Cultural Sérgio Porto, Rio de Janeiro (Brasil), 2000 (5) Vulcões e Vulconas, exposição individual, Galeria Leo, Lisboa, 1986 (6) Mute... Life, exposição individual, Galeria Atlântica, Porto, 1993 (7) Série Z, exposição individual, Casa Triângulo, São Paulo (Brasil), 2000 (8) Stereo: Even Flowers Can Hear You, exposição individual, Galeria Alda Cortez e Galeria Atlântica, Lisboa/Porto, 1990 (9) Phase 3 Eye Can See, exposição individual, Canvas e Companhia, Maio 1996 (10) Target, exposição individual, Círculo de Artes Plásticas de Coimbra, Coimbra, 1999 (11) As Ligações do Corpo, José Bragança de Miranda, in Metamorfoses do Sentir, Balleteatro Edições, Porto, 1998 (12)Presente já em trabalhos de modo intuído como na instalação referida na Fortaleza de Sagres em 1989 (a racionalidade da navegação, nomeadamente pelo uso inédito do astrolábio, em choque com os crimes da colonização) ou de modo explícito como em Still (exposição individual, Galeria Canvas, Porto, 1998) onde ferramentas de corte ladeiam com membros amputados, em Buonevoiage (na exposição colectiva III Bienal de Arte Fundação Cupertino de Miranda; Guarda, 2000) ou nas imagens de arquitectura associadas à ideia de desmantelamento, aridez e ruína da Série Z.