Acerca da exposição «Amores interpostos» . Espaço Cultural Sérgio Porto . Rio de Janeiro

Rio de Janeiro e Porto são tema de singelas mostras de fotografia

A exposição Amores interpostos, nas galerias do Espaço Cultural Sérgio Porto, traz ao Rio dois artistas estrangeiros: Pedro Tudela, português da cidade do Porto, e Rubens Azevedo, paulista, morando em Londres. O primeiro nos revela um Rio visto e fotografado sob o encantamento assustado de uma primeira visita, o outro retira da cidade do Porto imagens sombrias entre o sonho e a realidade. São duas exposições singelas, interessantes, de um artista bem jovem, Azevedo, e outro já mais maduro poeticamente, Tudela.

A curadoria, dando continuidade ao projeto pioneiro de curadores-visitantes inaugurado ali no ano passado, é assinada por um português, José Mario Brandão, apaixonado pelo Rio e que quis prestar-lhe uma homenagem junto à sua cidade, o Porto. São duas exposições que se complementam pelo fato de mostrarem as cidades de modo não-familiar, entre estranhamento e a admiração. Tudela, pintor de formação, realizou uma instalação multimídia, misturando projeção de slides, música e vídeo. Azevedo expõe fotografias manipuladas em computador.

Olhar estrangeiro - Ao entrarmos na galeria escura do primeiro piso, onde se encontra a instalação do artista português, somos envolvidos de imediato. Imagens do Rio são jogadas na parede por dois projetores de slides. É uma paisagem cotidiana: praia, prédios, ruas, árvores, pessoas. Cenas diurnas e com uma luz arejada. Ao que parece, o fotógrafo circulava pela cidade tomado pela atenção aguda dos viajantes. A cada esquina uma surpresa o fazia parar e clicar a câmera. A cidade caótica temperada pela natureza revelava-se por inteiro ao olhar estrangeiro. O que deveria ser tortuoso, passear entre prédios verticais e tráfego intenso, tornava-se prazeroso pelas insinuações da paisagem e pela mistura de gente.

Contrastando com este Rio charmoso, uma cena claustrofóbica é projetada na parede oposta. Duas lâmpadas brancas, luz fria, filmadas de baixo por uma câmera de vídeo em movimento circular. É um interior nada prazeroso, um lugar qualquer, fechado, sem qualquer referência, vivido em ritmo acelerado e opressivo. Ligando os dois, o lirismo e o pesadelo, temos uma música eletrônica, enigmática, que se espalha pelo ambiente por quatro caixas de som colocadas nos cantos da sala. Nas duas paredes, onde se projetam os slides e o vídeo, sete espelhos redondos lançam resquícios de imagem nas paredes laterais, criando sombras e movimentos curiosos. Além de cortarem as cenas, estes espelhos acentuam o espaço comprimido da galeria. Para além de qualquer detalhe narrativo, é uma instalação envolvente, nada óbvia, que ao mesmo tempo em que seduz, ameaça, como uma cidade conhecida de todos.

Fragmentos - Já as fotografias de Rubens Azevedo são mais melancólicas. Utilizando-se do computador, ele sobrepõe imagens fotográficas, criando cenas onde corpos, interiores e paisagens se misturam. A impressão é de que ele faz um diário afetivo colando fragmentos de memórias ou sonhos. A cidade não se revela nitidamente, ela vai aparecendo aos poucos e cheia de interferências, como pedaços de um passado totalmente transformado pelas articulações internas do imaginário. Mas esta impressão é produzida pelo computador: a tecnologia misturando tempos e vivências pessoais.

As molduras escuras, o passe-partout preto e o vidro dão às fotos um peso extra, uma cerimônia. O que atrapalha muitíssimo são os reflexos no vidro. As galerias do Sérgio Porto sofrem este problema crônico de iluminação, potencializado com a reforma recente. Fora isto, esta exposição confirma a motivação deste intercâmbio com curadores visitantes, que é trazer à cidade um pouco da produção contemporânea estrangeira.