É como se houvesse um princípio genérico, ou um horizonte final, em função dos quais se moveria todo o trabalho de Pedro Tudela. Esse princípio, ou essa finalidade, já que ambos se confundem, tal como se confundem o princípio e o fim de todas as coisas, seria a criação de um envolvimento sensorial total.

Este envolvimento sensorial total é algo que o autor vem propondo ao espectador, através da criação de ambientes, da realização de performances, da apresentação de conjuntos de pinturas orgânicas, ou da realização de instalações que, como no caso presente, ocupam e redesenham totalmente o espaço que as acolhe, não deixando terreno para fuga. Nos trabalhos mais recentes, a utilização do som torna este efeito de apropriação do espaço, e do visitante, ainda mais exaustivo. O mesmo efeito obsessivo produz-se, aliás, nos concertos do autor. A partir do momento em que entramos, se quisermos entrar, ficamos dentro. Não há escape. Mas julgamos poder adivinhar que este envolvimento sensorial total é algo que o autor escolhe - não sei se deseja, porque desejar é outra coisa - e produz, antes de mais, para si próprio. É uma maneira de se entranhar e revolver, ele próprio, em si próprio. As obras são, depois, uma maneira de dar conta dessa experiência. Uma espécie de mergulho em si mesmo.

Finalmente, e aqui chegamos talvez ao mais importante, importa dizer que não estamos perante um jogo com o espectador, nem perante a pura expressão autobiográfica de uma subjectividade. O que está no fulcro do trabalho de Pedro Tudela é, provavelmente algo de mais ambicioso e mais difícil: é a teoria do corpo, concebido e representado com uma massa de matéria orgânica que se move, durante um determinado período de tempo, entre a urgência de uma aflição e o sonho de um ritmo.

A teoria do corpo, em Pedro Tudela, assenta nos momentos de ruptura e de violência, acidente ou choque, tiro ou agressão. Ou seja, o nascimento e a morte. Dir-se-ia que a redenção está na evocação dos espaços antes e depois desses momentos catastróficos. Os espaços de fusão e flutuação orgânica antes de tudo começar. Os prometidos espaços de fusão etérea depois de tudo acabar. Entre os ruídos das mais fundas coisas da terra e os apelos dos mais altos céus. O durante é apenas isto.

É por isso que a obra de Pedro Tudela não é uma obra amável e que o envolvimento sensorial de que vimos falando não tem nada de confortável ou pacífico. Há violência e há dor, e isso é energia e é a vida, e é assim que a sentimos, total.