1. RESPOSTA

Um espaço - qualquer espaço - dotado de uma vocação artística, resultado de um investimento intelectual, apresenta como condição primeira para a sua verificação os traços, as marcas e as fronteiras do seu aparecimento. Circunstâncias materiais e afectivas determinam-no no aspecto físico e simbólico. De umas e outras vai depender a sua identidade, a construir num processo temporal e consequentemente histórico. No seu decurso uma proposta acaba por sofrer transmutações necessárias. A proposta poderá então surgir como resposta. Esta última acabará por ser continuamente testada, numa aferição que vai do social e do económico, ao cultural.

Um espaço onde se exibe arte contemporânea não é, necessariamente um museu ou uma galeria. Existem hoje formas declinadas de um e outro destes modelos, as quais dependem de programas específicos de abertura. Apesar de construírem relações análogas à ideia comum do que é um museu ou uma galeria, podem sugerir um entendimento que não se esgota, ou pelo menos não se confina, a essas tipologias. Ao incorrer num registo sem semelhanças com a oferta artística preponderante, um tal espaço aceita, por certo, divergir dos caminhos percorridos e procura um ritmo próprio. Essa será talvez a sua maior singularidade. É perante uma realidade dessa natureza que se admite estar. Ela inaugura-se sob o signo de uma discrição criteriosa e de uma vontade metódica.

2. AFINIDADES

Face ao que foi dito, algum significado terá estarmos perante uma exposição de três artistas com afinidades de percurso, apresentando todos trabalhos realizados há cerca de uma dezena de anos atrás. Albuquerque Mendes e Gerardo Burmester a partir do começo dos anos 80 exposeram frequentemente nos mesmos locais. A primeira individual de Albuquerque teve lugar na Galeria do CAPC, Coimbra, 1971. Gerardo selecciona para primeira mostra individual um conjunto de quadros denominado “Paisagens”, que apresentou na Galeria do Diário de Noticias, Lisboa,1980. Mas no decurso da década passada vamos encontrá-los frequentemente. Desde logo, na fundação de uma impertinente Associação de Arte, o Espaço Lusitano, que teve regular e surpreendente intervenção entre 1981 e 1985. Foi também ali que, a convite de ambos, Pedro Tudela apresentou pela primeira vez um conjunto de desenhos, acompanhados de Performance,1984. De resto, a Performance teve um inequívoco valor de referência nos fundadores do Espaço Lusitano influenciando-o decisivamente.

Note-se que não existe qualquer afinidade formal entre estes três artistas. Cada um subscreve uma produção bem personalizada, incapaz de suscitar equívocos ou ambiguidades estéticas entre si. A proximidade a que se alude, terá mais a ver com uma dinâmica comum, que foi sendo conquistada no radicalizar de cada uma das visões individuais, na capacidade de ocupar com densidade os espaços de exibição disponíveis, operando através deles um sistema de diferenças interligado na história artística dos anos 80. A Associação de Arte Espaço Lusitano teve particular relevo nesse processo. Apesar da exiguidade (uma sala num rés-do-chão na Rua D. Manuel II, no Porto) depressa se tornou numa manifestação alheia aos vários tópicos do poder cultural vigente, desde logo com um recorte de algum modo ideológico, assumido numa atitude de rotura e de certa paródia intelectual.

Para além de exposições e de performances dos seus fundadores, o Espaço Lusitano acolheu ainda (assim cumprindo um papel que muito poucas instituições então podiam, ou sabiam desempenhar) o trabalho de artistas em processo inicial de afirmação. Foi o caso de Pedro Tudela. Dele surpreendeu um conjunto de desenhos em papel de cenário, onde se libertava uma pulsão algo tributária de revisitados imaginários românticos, na figura de um explorador, obliterada por intermitências abstratizantes. Sombras e silhuetas que se erguiam nas paredes, como se dançassem.

Foi também no âmbito dessa prática artística comum que criadores provenientes de outras latitudes aceitaram participar. Registe-se a título de exemplo a exposição colectiva “Árvore de Natal”, onde participaram Angelo de Sousa, Zulmiro de Carvalho, Fernando Pinto Coelho, Dario Alves, João Dixo, entre outros nomes que delimitaram o panorama artístico ligado à “Escola do Porto”. Numa outra direcção o Espaço Lusitano cuidou da perspectiva internacional, assegurando de forma pioneira a presença de um conjunto de artistas na edição da Feira de Arte de Madrid de 1985, já então comissariada por José Mário Brandão que tem vindo a acompanhar de forma particularmente intensa a actividade destes artistas.

Antes e depois de terem assegurado este projecto, Albuquerque Mendes e Gerardo Burmester surgiam com uma espécie de coincidência táctica nas mesmas exposições colectivas marcando a evolução e transformação do estatuto das Artes Plásticas, quer através de novas formulações críticas, quer de uma afirmação de carácter geracional pautada por exigências autorais e mediáticas. Com incidências diversas foi o que aconteceu na exposição “Arus” (Museu Soares dos Reis, Porto, 1983), “Pintor-Personagem” (organização E.P.B. Fund. António de Almeida, Porto, 1983), “Novos Primitivos” (organização Bernardo Pinto de Almeida, Coop. Árvore, Porto, 1984), “Finisterra” (Sala Atlântica, Porto, 1985) ou nas bienais de Vila Nova de Cerveira e de Pontevedra em 1986. Em 1991 ambos os artistas partilharam o belíssimo convento de Amarante (onde está instalado o Museu local) naquela que terá sido uma das suas mais surpreendentes exposições-instalações. Cada um dos autores instalou um campo de forte presença, em diálogo com a arquitectura e monumentalidade do edifício.

No mínimo, de alguma cumplicidade se poderá falar a propósito destas trajectórias. Mas não é só disso que se trata, uma vez que as coincidências (no espaço e no tempo) traduzem uma co-responsabilização quanto à iniciativa e à dinâmica do devir criativo. De algum modo tratou-se de problematizar uma consciência estética que territorializou boa parte da década anterior.

3. EVOCAÇÃO

Poder-se-á agora traçar a genealogia possível dos desenhos da presente exposição, entender melhor o lugar para onde confluem. Já vimos que os liga algo mais que a semelhança técnica e de suporte, a data em que foram realizados (1986). Eles inscrevem também o próprio desenho como lugar em si, definindo-lhe objectivos próprios, adaptando-se ludicamente á função preparatória, meditativa e exploratória tendo em vista trabalhos de outra técnica, escala e dimensões.

Efectivamente em meados dos anos 80, quando os três artistas realizavam os desenhos que aqui se vêem, ocupavam-se também de peças, ou séries de peças que assinalaram momentos hoje perfeitamente legíveis no conjunto de cada uma das obras. Os desenhos cumprem nesta acepção um destino evocativo (ligeiramente nostálgico até) e documental. Ajudam a lembrar e a perceber melhor. A lembrar fases sedimentadas no fulgor da obra, sepultadas em cada uma das arcas imaginárias onde os espólios transitoriamente se guardam. O desenho pressupõe-se como uma função (é um instrumento na construção do imaginário), dotado de uma amplitude poética (é uma ressonância do Eu artístico, que prolonga o corpo e os sentidos).

4. EXCESSO

Os desenhos de Albuquerque Mendes representam fragmentos de máquinas, peças de um organismo mecânico com os seus movimentos circulares, roldanas, rodas dentadas, remetendo para um vitalismo que recorda Picabia, pintor revisitado numa fluente série de quadros de 1987-88. Esses elementos mecanicistas surgem também em produções posteriores. É o caso de um eloquente auto-retrato pintado em 1989. Um acrílico em papel sobre tela, onde o artista sentado num banco, segura numa mão um pincel e na outra um compasso, fita com o rosto desfocado um cavalete onde se encontra pousada uma tela em cujo fundo azul e ocre parecem girar duas rodas dentadas. Não apenas deste auto-retrato (género querido ao autor no que de mais divertido a expressão possa encerrar), mas de toda uma herança da pintura, são de certo modo devedores estes pequenos desenhos. É aliás no prolongamento compungido da pintura, citando-a e revendo-a, que podemos situar um dos factores mais originais em torno dos quais esta obra se tem organizado. Albuquerque dá assim um contributo à composição barroca da figura do artista por via da qual recolhe citações de ex-votos, ou museus imaginários, como quando realizou a série “Titanic”, (Galeria Sen, Madrid,1895), ou de vocabulários futuristas como parece acontecer no caso vertente. É um excesso, como se de uma descontrolada operação alquímica se tratasse, que se pressente na magnificiência da sua produção. A apaixonante (e apaixonada) ligação aos materiais, muito mais forte que uma manipulação telúrica, está com ele, omnipresente. A escolha de papéis, a colagem, as fotografias e cromos, a gama de cores, as tintas, as aguarelas, as texturas, os signos gráficos, a absorção das molduras pelo quadro, o desenho enfim, tudo isso faz parte deste emaranhado de recursos colocados à sua disposição e sujeitos a uma transmutação secreta. As peças desenhadas parcialmente, aludindo à infinitude da grande máquina do mundo, são pois excertos de uma memória pessoal. Uma memória que se apropria impetuosamente de matérias biográficas, que por sua vez se misturam de forma anárquica com fontes diversas da história da pintura, e de certa cultura tradicional portuguesa, criando dispositivos citacionais, uma permanente sensação de desequilíbrio e instabilidade. Sensível à manipulação dos grandes discursos plásticos, interpela e radicaliza o seu sentido, mudando de lugar referências, como quem mexe precipitadamente em peças de um tabuleiro de xadrez, de resto uma das suas referências Duchampianas. Essa agilidade profundamente sensual, instaura um cepticismo de forte alcance antropológico, ao mesmo tempo que elege de forma quase fetichista a arte como forma (im)perfeita de conhecimento. Dessa linhagem fazem naturalmente parte estes desenhos.

5. SUBLIME

Quanto aos desenhos de Gerardo Burmester dir-se-ia que eles são preparatórios de uma fase da sua obra em que retomou, com um misto de perversidade e extrema fantasia, o tema da paisagem, povoando-a de metáforas surrealizantes. As tintas são escuras e expessas, por vezes com sulcos brancos, resinas, secreções e rugosidades. Materiais sintéticos brilhantes, colados juntamente com tiras de papel pintadas, como se toda a imensa superfície fosse moldável. Fase de trabalhos com grande poder visual e alcance cenográfico, através dos quais se pressente uma ressonância operática. Tratava-se de uma muito pessoal modalidade de perseguir, de querer dizer, o sublime: elemento obsessivo na obra deste artista. Antecederam o evoluir para uma direcção muito importante da obra, em que surgem as peças de couro e madeira, trabalhando elementos de carácter serial, orientados sempre pelo mesmo pensamento e por uma ideia de absoluto.

A partir da segunda metade da década passada, deparamos com um elemento significante de viragem e superação que, de algum modo, estes desenhos enquadram e interpretam. Tratava-se de uma escultura apresentada na exposição “1985-87” ( Coop. Árvore, Porto, 1987). Uma peça em madeira de grandes dimensões, espécie de gigantesca cobra torcida, pintada alternadamente de riscas pretas e brancas, serpenteando no espaço. Esta materialização volumétrica ficou associada a vários dos seus quadros, sendo estes desenhos inseparáveis da pesquisa que a determinou. As novas paisagens de então prefiguravam-na, através de ambientes lunares e viscosos, onde se misturavam vegetações tropicais, formas dilaceradas e húmidas, misteriosas crateras. Em pequena escala é muita dessa agitação orgânica que se depositou nestes desenhos, com as suas sombras, morfologias e orifícios que parecem perder-se na profundidade da escuridão.

Estes desenhos funcionam como anotação de imponderável delicadeza. Uma oportunidade para recuar, acompanhando, a atitude inconfundível de Gerardo Burmester. Eles confirmam a esta distância o rigor e a determinação de uma obra complexa, que se vem estruturando com total fidelidade ás suas origens. A prática subsequente do artista demonstra isso mesmo, seja pela passagem de códigos de um “romantismo” exacerbado para a depuração perfeccionista e para a apropriação crítica de um virtuosismo industrial, seja pela deslocação da carga afectiva para circularidades cada vez mais fechadas e serializadas, ás vezes de uma claustrofobia com a qual Gerardo incita à contemplação do insuportável.

6. CINTILAÇÃO

De Pedro Tudela, o mais novo dos três, se poderá a este propósito realçar um comum distanciamento face aos arquétipos do paradigma artístico tradicional, desde logo através de um impulso onde o biográfico e o metafórico se fundem, num apelo de ficção. O apreço por algumas figuras em voga, num imaginário colectivo que hoje se nos pode afigurar datado, onde avulta a efíge de Grace Jones, posteriormente prolongado numa espécie de acústica das imagens, permanece todavia um dos elementos distintivos deste artista. Também nele o efeito irónico ganhou um estatuto de autonomia, designadamente em exposições como “Portugal Emigrante” (Roma e Pavia, Porto, 1986) e “Vulcões e Vulconas” (Galeria Leo, Lisboa, 1986). “Ascensão”, “Espelho”, “Água das Pedras”, “Crucifixo”, ou “Morreram Damas, Reis e Valetes”, são alguns títulos de peças surpreendentes nas quais exacerbava os conteúdos da representação. Ao mesmo tempo que as peças se deslocavam de um território sociologicamente coeso, o artista insistia na desmontagem política desse mesmo território (“Portugal Emigrante”). Tudela tem-se deste modo servido de uma multiplicidade de recursos, seleccionados de acordo com um vocabulário muito pessoal, que acaba por encontrar a pintura como auge de uma pura excitação orgânica. Ao longo de cerca de uma dezena de exposições individuais criou a sua própria obstinação, um sentimento de “espectacularidade”, e por vezes uma manipulação do “Kitsche”.

Nos final dos anos 80 Tudela mantinha ainda relações com a performance, embora lhe desse um estatuto de metalinguagem. Acentuou um processo de radicalização. Os trabalhos, ancorados nos pretextos da pintura, agarravam cores intensas e ampliavam recursos técnicos. À especificidade das metamorfoses, nas entranhas que as suas telas repercutiam, juntou-se uma cultura de índole musical. Os seus trabalhos passavam, também, por uma percepção acústica. Talvez ela sempre lá tenha estado, desde o desafio assumido com Grace Jones, nos jogos ás escondidas com Tom Ripley (o personagem de P. Highsmith), que alguns tormentos lhe terão causado... Ele opera uma intercepção de registos audiovisuais.

“Nunca fixo datas. Só emoções. Disso não me esqueço.” Com esta declaração proferida por Pedro Tudela em 1991 a propósito da sua exposição “Artebreaks” (Galeria Atlântica, Porto e Lisboa, 1991), podia também, resumir-se a sua atitude artística ao longo da década anterior. É dela que emergem estes desenhos. Começam com a escolha do papel vegetal e a exploração da transparência. Continuam nos elementos incandescentes, os quais deixam perceber a mais interior das combustões. Uma panóplia de vestígios animais e vegetais, como uma heráldica volátil, na lava que brotou dos seus “Vulcões e Vulconas”. Estes desenhos deixam perceber que há nas coisas, como na vida, um lado áspero, intersticial, onde circulam fluídos e deflagram pequenas explosões. Pertencem a uma cultura submersa que caracteriza o universo do artista, entregue a uma beleza incómoda e emocionada. Eles são afinal cintilações que não se podem esquecer. Isso vale a pena fixar.

7. COERÊNCIA

Observados separadamente ou sem dar atenção à data em que foram realizados este conjunto de desenhos talvez pudesse passar desapercebido. A verdade porém é que foram conservados, como se estivessem desde sempre destinados a cumprir um destino comum. Por isso terá valido a pena situá-los como consequência de relações, histórias que atravessam diferentes zonas de percepção. Eles têm uma origem e uma explicação. Suporta-os uma razão comum. Existe assim uma coerência que os protege e conserva. Deste modo acabam por surgir com uma evidência do maior significado. Subscrevem lógicas individuais, desafiam a monotonia, marcam um encontro para prevalecer. Isso mesmo pode resultar desta visão aglutinadora, que de certo modo se esboça pela primeira vez, em termos de uma partilha de contributos e descobertas que têm feito a complexidade desta geração.