Com a inauguração do ciclo Exposições do 6 † Andar, a Fundação Cupertino de Miranda sublinha o seu interesse na divulgação de autores nacionais que activa e qualitativamente se inscrevam no devir da contemporaneidade artística. O modelo expositivo poderá variar substancialmente, na medida em que se apresentem projectos inéditos, ou se aposte antes em dar visibilidade a obras pouco conhecidas dos artistas escolhidos para integrarem este ciclo. Pretende-se, assim, dar um carácter específico a cada exposição, procurando que a sua realização possa vir a constituir um momento de certa forma especial nos respectivos percursos.

Parece-me ser este o caso da presente mostra, Rastos de Pedro Tudela. Nela se confirmam os pressupostos criativos essenciais deste artista que em 1984 iniciou no extinto Espaço Lusitano do Porto um caminho de grande rigor estético, onde referências idiossincráticas se cruzam com as mais universais apreensões do ser perante a vida. A visão do artista confronta, assim, o espectador com os seus mais recônditos anseios existencialistas, numa clara estratégia de provocação emocional visando uma mais profunda consciencialização da efemeridade intrínseca à nossa condição humana. Trata-se, então, de uma obra que frequentemente (e de um modo agudo no caso da instalação agora discutida), pretende fazer-nos pensar sobre o modo como intimamente nos relacionamos com essa inevitabilidade, numa altura em que o sistema em que as sociedades ocidentais se têm vindo a organizar deixa cada vez menos espaço para este tipo de reflexão, inundando-nos com futilidades comunicacionais, urgências materiais e vazios conceptuais. De facto, se é natural que num contexto onde a velocidade e a obrigatoriedade de produção de rendimento das nossas acções não se encontre espaço para um pensamento que transcenda a imediatez das preocupações do quotidiano, as propostas de Pedro Tudela poderão representar a tentativa de criação de uma descontinuidade nesta espiral que prefere a apatia e a dissolução identitária à acção e ao pensamento livres. Ou seja, a pulsão eminentemente vital e orgânica dos seus trabalhos vem lembrar que não somos apenas peças de uma qualquer realidade orwelliana, mas sim construtores de realidades únicas, tal como o nosso corpo, na sua irredutível singularidade, o comprova. Esta unicidade é também extensível ao relacionamento que cada um mantém com a própria vida e com a irremediável perspectiva da morte.

A obsessão de Tudela com o corpo, com os seus fragmentos passíveis de manipulação, e com as suas qualidades e potencialidades metafóricas, não tem propriamente de ser interpretada como apontando para uma perspectiva pessimista e catastrófica sobre a vida, antes contribuindo para um processo de sedimentação de percepções que lembrem o lado mais visceral e dionisíaco da existência enquanto factores de diferenciação e afirmação individual.

Na presente exposição ecoam incessantemente indícios desta dicotomia que separa o individual enquanto diferença e o colectivo (e o normativo) enquanto apatia, tais como: um olho do autor mecanicamente reproduzido até à exaustão decorativa, logo despersonalizado; uma máscara totémica curto-circuitada pela tecnologia; passos que se ouvem ao lado da presença de elementos sinalizando regras de circulação; ou, finalmente, silhuetas de corpos recortados de relva artificial. Por outro lado, a insistência em metáforas da incomunicabilidade como efeito paradoxal do momento particular em que vivemos, ou seja, onde a sobre-exposição comunicacional pode, eventualmente, levar ao mais radical ensimesmamento e à mais improdutiva cacofonia, atesta-se exemplarmente na peça central desta instalação onde as fitas de uma série de bobinas de gravação audio são literalmente engulidas por um megafone.

Assente, em grande parte, numa estratégia de pendor surrealizante onde o paradoxal é elevado a categoria estética (observe-se, por exemplo, o aberrante ex-voto que consiste na fusão de um pé com umas mãos), a instalação desenvolve-se identicamente a um estranho enredo policial, onde o espectador se confronta com múltiplos indícios, sem, no entanto, poder no final reconstituir a verdade. Daqui talvez se possa concluir que o que se deva acima de tudo procurar são verdades que nos sejam próprias, sem nos deixarmos abater por um hipotético e irresolúvel problema. Ou seja, os rastos semeados nesta instalação, essas presenças fantasmáticas de corpos são, afinal e surpreendentemente, metáforas da superioridade do indivíduo perante a sua efemeridade e perante a indiferenciação a que parece estar condenado, na medida em que consigam, mesmo na sua condição de memórias de algo que já foi, influir no modo como pensamos e percepcionamos o que somos.