Toda a pintura descerra uma duplicidade inconfessável: por um lado, oferece ao olhar aquilo que dá a ver e, por outro, não pode deixar de nos tirar para fora do suporte, para um aquém e um além que funcionam como o seu conteúdo objectal e que se encontram, desta forma, ausentes da visão. A duplicidade é muito nítida nestes trabalhos de Pedro Tudela, uma vez que o seu conteúdo objectal, ou mundano, é intencional e explicitamente exposto. Expõe-se como centro, âmago da vida e doador de sentido – o coração – órgão primeiro e essencial, vestindo todas as conotações de que o termo é capaz, envergando todas as vivências que lhe são humanamente possíveis: One ... fits all.

Quando me refiro a «estes trabalhos», vêm-me à cabeça as palavras de Maurice Blanchot: de uma obra poderíamos apenas legalmente dizer que é e nada mais, pois é sempre acabada e inacabada, finita e infinita. Mas são, justamente, esse infinito e esse inacabamento que permitem pensar o desenrolar da obra: os elementos de transição que em cada conjunto (cada exposição) apontam para um antes e um depois.

O tema do orgânico tem sido uma constante nos trabalhos de Pedro Tudela, desde o vegetal mais decorativo, até à mais animal intimidade, se considerarmos como íntimo, o mais interior, resguardado, o que se entranha ou é entranha. Contudo, é aqui introduzido um elemento de tratamento dominantemente mineral (N†11). Neste mesmo trabalho que Tudela considera anunciador, virado para o depois. O coração da esquerda parece uma sólida peça desenhada à vista. O material (grafite) usado para exibir um coração pétreo, estático, ou definitivamente sem vida, reforça um novo aspecto em que o orgânico aparece cristalizado. È de notar que o elemento vegetal perde algumas características de curvatura enrolada e delineamento interno, patentes na maior parte das outras telas , para apresentar uma consistência mole, quase viscosa, de uma inércia inusitada que o convida a plasmar-se ao cenário deserto.

Em cada trabalho de One ... fits all existe uma fusão perfeita entre vida animal e vegetal. O vegetal é muitas vezes assumidamente barroco (N†10), sendo a curvatura, nas suas orientações e contra- orientações, profusamente decorada. As cercaduras, nos trabalhos de transição para o passado (N†8 e N†9), atestam este carácter decorativo. Na maioria das telas, o vegetal atinge uma dimensão inteiramente orgânica, tanto ao nível do seu tratamento plástico, como ao nível do modo como as formas divergem a partir do coração, através dos seus vasos que são, simultaneamente, canais e caules, veículos e caminhos. Estes medeiam a origem, em que a vida inicia os seus ritmos, ramificando-se em percursos, vias de acesso, até ao extremo em que cada um bebe finalmente o seu destino, extremo este que é frequentemente uma ramagem emplumada, tão consistente como se nela corresse ainda a seiva que a alimenta.

Quando esta simultaneidade é diferida e não cabe no espaço de uma tela, a unidade vital entre o coração e o vegetal que dele pulsa, exige a comunicação de um trabalho em que o coração se exibe a solo (N†1) com um outro, vegetalmente decorativo (N†7), que o completa e lhe dá sentido.

Estes corações não representam a vida em abstracto, mas o vivido da experiência, que além de uma dimensão espacial, dá a ver, na sua textura, uma forte dimensão temporal. Assim, o coração nunca se apresenta inteiramente isento de contexto; existem, no mínimo, fluídos e massas celulares onde é patente o desgastar do seu ser orgânico: o tempo deixa vestígios nas cores das telas, cores gastas, consumidas por dessaturação ou sobressaturação. È sempre, pois, um coração que bate, um coração que traz em si uma panóplia de sentires e de memórias de ser.

Esta facticidade conduz-nos a D' Heart Side *, um outro espaço físico, no sentido literal, mas também um outro topos patológico em que o coração revela a sua vivência dark.

Os treze trabalhos têm agora, como suporte, papel colado em tela e contrariamente aos trabalhos subsumidos no título One... fits all , são embelezados com uma moldura. Observa Pedro Tudela que, sendo o papel tradicionalmente ajustado ao desenho, trata-se aqui de o enobrecer através da mistura dos materiais ( grafite, pó de grafite, mas também óleo e pastel de óleo), da moldura, e da presença da tela nos bastidores do papel.

Este outro lado, ou D'Heart Side , é protagonizado à maneira de uma instalação, em que cada órgão dos sentidos é convocado através de um canal que não é seu de direito, desencadeando penosas sinestesias: por baixo dos quadros nivelados, a visão de toalhas ensanguentadas, penduradas em toalheiros metálicos, exibe as suas marcas tácteis; a televisão mostra um altifalante mudo que, através da mudança rítmica da forma, dá a ver o som incessante de um coração inexistente; o silêncio exigido na «instalação» hospitalar é veiculado pela imagem, imagem que tem como contraponto, tanto uma sonoridade ambiente, como o som do ambiente em que somos mergulhados. A cercadura metálica que envolve o altifalante e toda a evocação da tecnologia hospitalar com o cheiro do éter derramando-se enquanto «soro» (mas evolando-se enquanto éter) numa bacia de sangue, manifestam cruamente o carisma de um cenário inteiramente real. Finalmente, duas fotografias de corações, disparadas num talho, completam a cena de que toda a poesia parece ter sido retirada. Somos, assim, obrigados a enfrentar o absurdo do simulacro, sentindo nas próprias vísceras que a reprodução se transmuta afinal na apresentação do real. Mas também aqui, desfigurada pela dor na multiplicidade das suas vestes, a poesia oferece o rosto mais sombrio da beleza.

Os dois espaços povoados, dão plasticamente a ver, no seu conjunto, a infinita complexidade da vida, revelada pela complexidade de uma obra surpreendente e lúcida.

  • D'Heart Side é uma instalação apresentada nas mesmas datas na Galeria Atlântica.