Um destes corações há-de ser nosso. Ou o que dele restar, um dia destes. De tantas incertezas, é a morte a nossa única garantia. Só não sabemos como vai ser quando chegar a vez. Vamos morrer de tripas esviceradas no asfalto, entre os destroços dum carro? Ou mergulhar na escuridão repentina duma síncope? Vamos cair de vinte andares abaixo à velocidade do terror, ou desfazer-nos no veneno rastejante dum cancro? Tudo pode acontecer-nos: a falta de ar, as queimaduras, o sangue a jorros abandonando as feridas. Mas há-de ser pela estupidez cruel de um crime, ou pelo frio acaso dum desastre? Ou pelo calendário da doença? Daqui a pouco tempo na velhice? E quem nos restará para nos chorar?

Ninguém gosta de pensar nestas coisas: São o mais real dos pesadelos, e de preferência cortam-se cerces com um «credo !», um «nem –falar – nisso – é - bom». É possível viver-se sem se pensar na morte. Dias incríveis continuam a aparecer-nos no caminho: grandes amigos e paixões, e grandes aventuras e projectos; há sempre um que outro coração vivo que quer bater como o nosso, e tantas marcas de nós mesmos a deixar num bocadinho do mundo. Temos heróis e temos metas, e tesouros que levamos connosco no caminho: memórias de vozes , de noites, de vitórias e de cheiros. Temos tanta coisa e dói imenso pensar que ao fim de tudo é a vez do tal pavor, do tal sufoco, e do silêncio.

Para a maioria de nós, a morte não é nenhuma amiga – é uma puta que não vem nada ao caso e nos dá cabo dos planos. Mas é ponto assente, e não há vista grossa que a disfarce. Antes viver com o fardo: morrer faz parte do contrato. É um destino muito antigo, e antes lidar com ele com dignidade do que temê-lo e evitá-lo, quando há tão melhores coisas para fazer. Temos mortos pelo meio, eu e o Pedro Tudela. Gente com quem crescemos; gente com quem tomámos bicas; gente a quem atirámos bolas de neve em manhãs brancas. E há-de haver mais. Mas entretanto há tantos mistérios para pintar e descobrir. E para criar. Rosi Avelar, a mulher do Pedro Tudela, pinta gente sombria naquele espaço da noite em que se espreita a eternidade e o silêncio é branco. Quanto ao Pedro, pinta o que vai dentro dos nossos corpos e a tortura suja e arrependida das almas. Não há vergonha: por dentro somos uma lama de sangue e de pecados, redimida em couro e vidro. Tudo sucede independentemente de nós.

Não há ninguém de quem eu goste cuja morte não me não tenha passado por momentos pelos olhos, como uma premonição de terror. Imagino de tudo, violências e tragédias; e sofro, e quero desligar a imagem. Mas não há controle remoto para o medo. Quanto mais felizes somos mais nos recordamos que tudo tem um fim. Quando vejo estes corações reconheço-os a todos, e a quem eles pertencem. Alguns são de gente que ainda não nasceu.

Chicago, Novembro 1994