« Mute ... life » é o título genérico de um projecto que constitui uma das mais completas e articuladas apresentações até ao momento não só do trabalho como da atitude de artista de Pedro Tudela. Um projecto em que por assim dizer se cumpre plenamente a lógica que o autor vem desenvolvendo na última fase do seu trabalho marcada pelo predomínio da prática da pintura entendida num sentido mais tradicional. Essa lógica cumpre-se precisamente no sentido da abertura a dimensões que vão para além dos contextos mais convencionais de exposição de pinturas, entrando pelas vias da instalação ou « envolvimento ambiental », segundo uma direcção que nos remete para realizações da primeira fase da sua actividade, designadamente intervenções em espaços públicos e exposições que integravam a « performance».

« Mute ... life » é uma exposição na Galeria Atlântica no Porto. Aquilo que se apresenta é um conjunto de 17 pinturas mas justifica-se falar de « instalação », mais do que uma simples montagem porque não só a apresentação como a própria realização das pinturas partiu de uma análise e decisão prévias relativas ao espaço da galeria e ao efeito global que através da sua ocupação se pretendia obter.

Pedro Tudela aplicou às paredes da galeria uma rede quadriculada que as divide através de linhas visíveis pintadas a negro em quadrados de 1m. 17 desses quadrados são ocupados por 17 pinturas distribuídas segundo um esquema não regular mas pré-determinado através de um exaustivo jogo de simulações em computador. As pinturas surgem distribuídas pelas paredes da galeria segundo um sistema que as faz aparecer como peças de um puzzle incompleto.

« Mute ... life » é também o título da banda sonora da exposição, editada em CD, e elaborada por Pedro Tudela, Pedro Almeida e Alex Fernandes. Dura cerca de uma hora e compõe-se de 17 partes mas é ouvida ininterruptamente durante todo o tempo em que a exposição está aberta ao público criando um contínuo sonoro que reforça o efeito de desenvolvimento inerente à solução de instalação. A construção musical assenta numa sobreposição e colagem de elementos de diferentes proveniências. Ruídos quotidianos reportáveis de forma genérica a alguns aspectos da pintura do autor, como sejam ruídos de isqueiros metálicos a acender ou de bolhas de água. Diferentes géneros musicais como sejam a « música para filmes », as « músicas planantes » ou o hip-hop. Citações de Laurie Anderson, John Cale, Negative land ou Talking heads entre muitos outros nomes que fazem parte dos hábitos de consumo musical de Pedro Tudela. Destaque para um « rap » assinado pelo próprio cujo refrão «life of my body is my life» ecoa uma passagem de um texto escrito por Al Berto para uma anterior exposição «catálogo Artbreaks», Galeria Atlântica, Abril, 1991).

Uma primeira intenção e um primeiro efeito desta exposição, resultado directo da solução de instalação e da banda sonora é o envolvimento total do espectador. Podemos falar da experiência do espectador de cinema absorvido pelas imagens que desfilam no écran ou do melómano abandonado à escuta ou da conjunção da experiência de ambos. Mas podemos também admitir a aproximação à experiência do próprio pintor, «afogado» no seu estúdio, rodeado de quadros que «caem» sobre ele, envolto num «banho» de música non-stop, e sabemos que é assim que Pedro Tudela trabalha, horas a fio sempre em espaços extremamente exíguos e sobreocupados. De alguma maneira é a sua própria experiência que o autor tenta reproduzir e partilhar.

Aqui encontramos a actualização de um propósito que se manifestava já na sua primeira exposição «Desenho / Performance» (Espaço Lusitano, Porto, 1984), em que o autor se produzia e projectava no decurso do processo do trabalho de se desenhar nas paredes e chão da galeria. Ou na performance da inauguração da exposição «Portugal emigrante» em que o autor recebia no quarto, de chinelas e televisão acesa, reproduzindo e fazendo partilhar então não tanto a sua experiência pessoal de artista mas a sua de algum modo experiência estética, cultural e social do meio envolvente. Era o período das referências kitsch às graças e desgraças de um quotidiano socialmente determinado, precisamente o do tal «Portugal emigrante» então sentido como agressão mas também como provocação inspiradora. Uma tal inspiração provocatória era bem detectável na segunda decoração produzida para o 1º andar da discoteca Griffon´s em 1986.

No entanto, importaria aqui evocar sobretudo a decoração realizada para a pista de dança com um conjunto de pinturas de rock-stars e a que correspondem as variações sobre a imagem de Grace jones na exposição «A one-man show» (Galeria Roma e Pavia, Porto 1984). Na altura predominava ainda no trabalho de Tudela uma relação com os temas ou pretextos que podemos considerar ilustrativa mas nada nos impede de aí situar um momento privilegiado de experiência do trabalho de Pedro Tudela sob a forma de uma completa emersão plástica e sonora em perfeita consonância. E convém não esquecer que as noites do Griffon´s por volta de 1986 eram consideradas das mais «avançadas» do país.

Falamos de um efeito de envolvimento total como proposta de experiência sensorial global apresentada ao espectador. Este envolvimento pode ser pensado e comentado segundo duas direcções não opostas mas complementares. O envolvimento como dissolução de si próprio em si próprio. A complementaridade proporciona evidentemente leituras em termos de dissolução dos limites e fusão interior / exterior.

Mas mantendo a distinção, por conveniência metodológica, diríamos que à ideia de dissolução no exterior corresponde a figura do mergulhador rodeado de mar por todos os lados, que necessariamente experimenta a sua posição como ocupando o lugar de um centro que é o seu próprio corpo a partir do qual observa as mil e uma formas de um universo aquático. Algo de semelhante se poderia dizer da experiência do aviador voando sempre no centro de um céu infinito mas parece-me sensato admitir que o elemento determinante em Pedro Tudela seja a água e não o ar.

Quanto à ideia de dissolução em si próprio corresponde-lhe a figura impossível de alguém cujo corpo tivesse sido virado do avesso como uma luva (existe uma personagem assim no genial romance «In a shallow grave» de James Purdy) e que assim pudesse ver-se rodeado do interior do seu próprio corpo. E nessa visão alucinada fosse levado até ao extremo da perda da noção física da sua especificidade propriamente humana em vias de fusão num contínuo humano/animal/vegetal em permanente movimento num espaço físico – aquático, viscoso – e sonoro ilimitado.

Experiência comparável é a da prática compulsiva da dança em espaços fechados e superlotados atravessados por fumos e lasers proporcionada por variantes específicas de «ecstasies» produzidos em consonância com modalidades específicas de música «techno». Mas não devemos levar as analogias demasiado longe. O trabalho de Pedro Tudela exclui a facilidade do arrebatamento espectacular ou da empatia demagógica.

Sabemos que «sempre foi difícil mergulhar para dentro de um corpo» (Al Berto).

O método de Pedro Tudela , apurado por uma prática constante e obstinada da pintura compõe-se cada vez menos de exibição/agressão/choque, como sucedeu em fases anteriores da sua pintura, e cada vez mais de sugestões/coagulações/deslocações.

O mergulhador desceu ainda mais fundo. O ambiente à sua volta tornou-se simultaneamente mais amplo e desimpedido e mais denso e carregado de insinuações. Um número cada vez maior de películas que se sobrepõem. Mas são películas cada vez mais finas. Para que de umas para as outras possam passar com a maior fluidez as formas, as imagens, as teias, os padrões nelas inscritos. A fluidez define um ritmo ondulatório de propagação do movimento que anima cada uma das telas e faz passar de uma para as outras dando sentido à sua leitura como conjunto.

Peças de um puzzle incompleto ou zonas entrevistas de um imenso aquário cujas parede seriam as paredes da galeria. Que nalguns segmentos permaneceram brancas para nos dificultar o acesso. Em vez de uma evidência a subtileza de uma sugestão. O espectador é incitado, ele próprio, a circular, a deslocar o seu ponto de vista, a procurar ver mais, e melhor.

O espectador é chamado a restaurar com peças do seu próprio corpo o puzzle interminável do perdido corpo do universo.