Primeiro, poder-se-á notar o modo como, na pintura de Pedro Tudela, se vão reflectindo imagens da natureza, ou melhor, morfologias naturais, quero dizer orgânicas. Mas, devemos, principalmente, entender os processos de formação – produção das suas imagens como explicação de um desenvolvimento ritmíco abstractizante , que tende a autonomizar-se em relação aos modelos naturais a que inicialmente os pensávamos limitados. Essa capacidade de libertação verifica-se, quer a nível plástico quer a nível semântico; expressão de uma energia cuja imagem formal se mantém próxima do orgânico ( na medida em que procede ao encadeamento ondulatório de formas alheias a qualquer geometrização, em que recorre ao ilusionismo da volumetria e na medida em que recusa as malhas de uma composição ortogonal) mas que garante, fundamentalmente, o desenvolvimento da referida lógica abstracta ( na medida em que cria imagens sem qualquer lógica de legibilidade: nem ideográficas, nem representativas, nem ilustrativas).

Se levarmos em linha de conta este quadro de características a pintura de Tudela revela-se como explicitação de uma energia de dupla origem. Remete-nos para um delírio formal, textural e cromático formado a partir de um conjunto de referências concretas mas percorrido por desvios ou ironicamente aproximáveis de uma imagética de «cliché» surrealizantes. E apresenta-se como painel de simulacros: mimando as regras de produção de fenómenos naturais (orgânicos) procede evidentemente a operações abstractizantes, quer dizer, intelectuais e teoréticas.

Mas o dinamismo desta pintura revela-se sempre através da relação estabelecida entre os dois níveis referidos; como se Tudela procedesse por um processo dialético ascencional, como se partisse do sensorial para atingir o espiritual. Por isso o recurso às imagens literárias e comparativas ( literais ou poéticas) entre a pintura e o mundo podem manter todo o seu sentido e servir até ao entendimento produtivo da obra.

Num primeiro nível, podemos situar-nos a partir de uma posição interior ao corpo. Como se procedessemos a uma biopsia, a uma endoscopia sobre um corpo contrariado e revoltado: glândulas fascinadas contaminadas pela secrção de delírios cromáticos, pontos brilhantes como dentes em alvéolos translúcidos, canais irrigados por líquidos espessos conduzidos em circuito fechado, nervos vibrantes como cordas de um violino. Num outo nível, podemos situar-nos em relação à paisagem, a partir de um ponto de vista vertical. Como se se tratasse de um processo de fotografia aérea sobre os campos revolvidos por guerras, escavados por toupeiras, lavrados por mulheres de malhas coloridas, listados de estufas e cereais, ponteados de limões e cavalos, manchados de lagos azuis. Finalmente, podemos situar-nos relativamente a um conjunto de imagens que se constituem como sistema de objectos de filiação tecnológica. É aqui, um posicionamento de exterioridade, na medida em que esses objectos tendem a isolar-se do contexto pictórico que os rodeia, tendem a definir os seus limites por meio de uma rarefação de texturas que faz aparecer o traço (o desenho dos contornos) e tendem a destacar-se da malha compositiva.

Portanto esta pintura não é retrato, nem paisagem, nem natureza-morta.

As três situações descritas reforçam a predominância da referida lógica abstracta nesta pintura, proporcionam a ultrapassagem de limites literários, ideológicos e críticos assumidos nos discursos kitsch de trabalhos anteriores e garantem autonomia visual às últimas fases de trabalho de Tudela.

Os pontos de apoio desta nova atitude são, respectivamente, a velocidade e a circularidade. Velocidade sugerida pela acumulação e continuidade das soluções plásticas contraditórias e contíguas, resolvidas em correspondências sinestésicas de sons e luzes (beijos e brincos dourados, sirenes e espelhos quebrados, azulejos e aviões acrobáticos). Circularidade resolvida por encadeamento espiralado ou em torsão das formas em associação com crescimentos por propagação, cissiparidade e metástases, desmultiplicações ou fac-similes (crescimentos orgânicos ou maquinais).

Aquelas três situações convergem (em obras mais recentes e ainda em desenvolvimento) na constituição da imagem como «máquina do mundo, através da explicação de valores pictóricos essenciais, quer dizer, dos valores abstractos da energia criativa: larguesa do gesto, rarefação da matéria, desmaio da cor, clareza da composição. Imagens de um universo exterior, alheio já ao corpo, à paisagem, ou à concretização objectual, próximas de uma simplicidade que não deixa de ser sempre imagem de uma vertigem, não abismal mas ascencional.

Deste modo se pode revelar o sentido de jogo pelo jogo em que a pintura de Tudela nos inicia. Processo de criação de objectos artísticos cujas regras são determinadas pelo mimetismo do natural e cuja finalidade é a do puro desenvolvimento torrencial e ininterrupto de imagens.

Deste modo se pode definir a posição desta pintura no contexto em que se inscreve: coincidência com a espiral de imagens formadas e difundidas no mundo actual; coincidência com a turbulência e vitalidade das leituras expressionistas e românticas na natureza; processo de purificação abstractizante exercido sobre todas estas imagens , no sentido de construir/mostrar o essencial a partir do excessivo.

A natureza nunca existiu; é apenas uma derivação da mente humana: As imagens naturais ou orgânicas formam-se de elementos e materiais artificiais e através de regras de produção abstractas.