Pedro Tudela — um dos "convidados espaciais" da exposição "Universos paralelos" — realizou anteontem, na Fundação de Serralves, no Porto, uma "performance" com o seu projecto Mute Life dept., que inclui colaborações dos músicos Alex Fernandes e Pedro Almeida.

O inúmero público presente na capela da instituição portuense começou por ser confrontado com uma imagem a preto e branco, de grandes dimensões, emitida a partir de uma outra sala através de uma câmara de vigilância. O cenário visível era composto por uma série de sombrias figuras de contornos humanos espalhados pelo solo — uma citação da mostra "Rastos", realizada pelo artista este ano na Fundação Cupertino de Miranda, em V.N. de Famalicão.

Na parede da capela já se encontrava inscrita a palavra "still", enquanto nos ecrãs de quatro televisores também colocados na sala passavam vídeos apresentados em anteriores exposições de Tudela. Os protagonistas estavam invisíveis. De repente, do fundo da imagem projectada, surgiu o artista, como que renascendo dentre os corpos jazentes. Vestiu um fato-macaco, tapou a boca e aproximou-se da câmara, que analisou com minúcia. Com o rosto em grande plano, o "performer" rapou então o cabelo e, de seguida, procedeu à recolha, num saco plástico, de alguns dos vestígios da acção. A música adensava-se, em ritmo e em volume.

Tudela desapareceu novamente do enquadramento. Desta vez para surgir por detrás da assistência, abrindo caminho até à imagem de onde tinha saído. A intensa batida tecno associava-se agora a um intenso piscar das luzes. O artista iniciou a pintura da parede, cobrindo-a com tinta preta. Do tecto caía milhares de fotocópias com o perfil da face do performer. Apenas a palavra "still" não foi tapada pelo líquido negro. Uma declaração que pode ser entendida como a vontade de Tudela afirmar a sua existência e, por extensão, a negação da morte da pintura. Contudo, outras são as leituras possíveis, pois a polissemia do vocábulo inglês possibilita inúmeras soluções. No fim, com a alguma tinta a escorrer pela cabeça, Tudela saiu de cena.

Fez-se silêncio.

O ambiente que resultou da "performance" pode ser visitado hoje.