As caixas contêm invariavelmente segredos que encerram e separam do mundo algo que é precioso, temível ou até frágil. Quer sejam luxuosamente ornamentadas ou demasiado simples, só têm valor simbólico pelo seu conteúdo.

O tema de trabalho a considerar e compor é um Salão Nobre. É uma matéria que guarda tudo o que foi e se abre para uma nova porção que resguarda outra. Um móvel que carrega e recorda o passado com remanescentes quase arqueológicos.

Surge então a oportunidade de constituir um contentor destinado a absorver memória, a consagrar dados do que foi o lugar e o tempo, a transportar diferentes e aferidos usos ou aspirar novos indicadores.

O recinto passa a conter uma caixa que não afasta o tempo e o território, mas que os confronta no lugar da superfície e da informação. Pelo facto, é inevitável fazer uma analogia ao trabalho Mute … life, de 1992, onde as superfícies do lugar intervencionado foram totalmente divididas numa quadrícula de metro, animada com registos plásticos, em tudo análogos ao indumento deste Salão.

O possível revestimento do objecto é o interior, podendo assim, sem ocultar, revelar o jogo de relações, pistas e certezas do que se cria na superfície do espaço ocupado pelo nosso olhar.

Com que ritmo se garante uma adaptação? Com que métrica se afirma o controlo?

Uma das formas acreditadas de oposição no interior do mesmo tema, são os contrários.

A repetição do módulo guia e desdobra-se em esclarecimentos mutantes sempre que o espectador se move, por isso o próprio ocupante é futuro foco de explicação e diegese do assunto desta caixa.

Ao contrário da caixa de Pandora, esta é uma caixa que está sempre aberta e respira no sufoco da constante informação do espaço onde nasceu. Não é imagem do que não deve ser aberto, mas pode ser inesperada nas suas memórias, capacidades e desejos.