“Socorro, não estou sentido nada. Nem medo, nem calor, nem fogo. Não vai dar mais para chorar, nem pra rir. Socorro, alguma alma, mesmo que penada, me empreste suas penas. Já não sinto amor nem dor, já não sinto nada. Socorro, alguém me dê um coração, que esse já não bate nem apanha. Por favor, uma emoção pequena, qualquer coisa. Qualquer coisa que se sinta. Tem tanto sentimento, deve ter algum que sirva. Socorro, alguma rua que me dê sentido, em qualquer cruzamento, acostamento, encruzilhada. Socorro, eu já não sinto nada.”
Arnaldo Antunes e Alice Ruiz

Poderíamos apontar três princípios que se apresentam como part pris em toda a obra do artista Pedro Tudela: a conjunção de vários elementos visuais superpostos, como princípio; o uso dos meios (pintura, vídeo, fotografia, objeto) como intersecção do discurso plástico e a percepção humana elevada à categoria do sublime, como finalidade. Tendo o olhar agudo de um cientista, o artista sabe que uma imagem nunca vem duas vezes, melhor seria, talvez, mimetizá-la. Na sua procura, ou finalidade, faz da arte seu bem supremo de comunhão com sua espécie. Divide, então, generosamente com todos seu panegírico para aliviar as dores da existência. Pois para cessar essa dor, o único remédio eficaz é a morte, como quer a filosofia. Ou mesmo a ironia, como quiseram os teóricos do absurdo (Diógenes como pioneiro, vale lembrar). Para o artista, essa “petite mort”, esse gozo supremo, é a arte.

A descoberta do mundo se dá pelos poros, ouvidos, narinas, retinas, boca, orifícios que se abrem e absorvem o que vem do exterior, mas também ao se abrirem para receberem, deixam-se ver suas entranhas. Como artista, Pedro Tudela age como quem jamais vai contar o que viu, ouviu, sentiu, apenas dá pistas, deixando que o espectador, perceba por si só. Pois o tipo de coisa que vê, aliás, jamais é contável, melhor organizar bem o que sente e que o vê num conjunto de práticas artísticas, as quais denominamos objetos de arte, cuja finalidade - se é que se deva ter uma -, é nos arrancar da imobilidade.

Toda sua obra se configura como uma colagem de meios: visual, táctil e auditivo, configurados numa poética própria, cujo objetivo é o de demonstrar toda a problemática do eu neste mundo desmontado de sua identidade. Mas não o faz de forma auto-representativa, ou referencial, como alguns. Não, o faz de forma coletiva, como se o sujeito do seu discurso fosse coletivizado, que age como uma peste, uma epidemia, algo comum à humanidade, como a idiotice, a avidez, a avareza, as doenças e moléstias do corpo e da alma.

Sabemos o quanto o ato de aperceber-se do corpo é uma guerra dos impulsos, de nervos e de rotas de fuga. No trabalho de Tudela, essas rotas de acidentes e metáforas hospitalares são “outros tantos modos de afirmar essa angústia (ou esse desespero) de uma revolta surda que não procura satisfazer-se com a esperança colocada em amanhãs que cantam”, como assinalou o crítico Bernardo Pinto de Almeida sobre a obra do artista (1).

O mix de pintura, fotografia, desenho, objeto, ganha pulsações sonoras, contamina o território da representação com um som real ou criado (eletronicamente); exibindo assim a fúria própria do corpo, seus ruídos, seus insumos, seus ressequimentos, seus ressentimentos, seus recalques... questionando a corporeidade, a carnalidade das coisas, existente que comparecem como dor, medo, angústia - sensações experimentadas pelo corpo que reverberam como graves no espaço oco.

Esse escopo visual produz imagens sintéticas no cérebro de quem as vê, e parecem ser o resultado de uma racionalidade estética que já está em curso no tratamento das suas representações. O que está em jogo, neste jogo de espelhos, é a semelhança, pois a arte não é uma impostura da representação das imagens geradas pela natureza. Essa divisão morreu com o classicismo renascentista, pois é, antes de tudo, um palco barroco de êxtase e terror, transfiguração humana. É o paroxismo das mentes fenomenológicas de que vê na semelhança, o resultado da percepção, não seu motivo.

Seu experimento visual-sonoro em pt 12072001rj do artista só pode ser entendido como experiência do lugar. O que acontece quando alguém muda de lugar? Leva consigo os tiques de sua cultura? Incorpora novos modos de vida deste lugar? Mistura essas duas perspectivas e gera uma nova força criadora, poderosa, de que precisa todas as culturas para se manter vivas? E o artista, imbuído de sua missão sublime de consciência do tempo, da duração da vida, do efêmero das civilizações, procura traçar uma história do seu tempo...

O artista não escreve para o presente que escorre, ele deve-se à posteridade. Neste dilema schopenhauriano, rivaliza o passado _ que viveu, com o presente _ que transcorre, e o futuro que tanto almeja. Mas o futuro faz parte da obra e o tempo é critério, relógio, figuração poética... Depois é o corpo, marcando os passos em direção à decadência, e ao mesmo tempo alcançando o incomensurável. O sublime é apenas o próprio tempo, que se repete em corpos, fractais, gases, insumo da terra que se transforma. O corpo não é mais o mesmo, apenas traz suas marcas, essência. O artista apreende o tempo, o corpo e a duração como a eternidade, tomando-os, apoderando-se como Saturno aos seus filhos. A universalidade no espaço tem seu equivalente no corpo, sublime como é sublime para todos os homens e para a eternidade.

A obra de pt 12072001rj, de Pedro Tudela busca essa comunhão entre tempo e espaço, experiência e vivência, que está escrito e o que está a se escrever... Em certo sentido, busca afirmar as misérias da vida, como queria Nietzsche, pois é na mesquinhez das coisas cotidianas que o homem se acha, se concebe. A cartografia pessoal de Tudela pode cruzar fronteiras, oceanos, civilizações porque grudam na retina, ressoa no martelo. Escreve a história, concebe uma odisséia, como registro de um tempo permutável, veloz, fragmentado, estilhaçado, muito além do Splen baudelariano, que cede lugar à referência de tempos vividos.
Sua obra nos remete as práticas artísticas consoantes com o tempo volatilizado em que vivemos, como nos alerta Paul Virilio, em A bomba informática (2), sobre o perigo das máquinas-bombas do nosso tempo. Então se faz urgente uma outra percepção, não uma seminova, mas outra que nos ajude a compreender fenômenos contemporâneos como body modification, os transexualismos e as fisiologias dos gostos diferenciados.

A ciência hoje está a serviço dos desejos humanos e não o contrário, pois ultrapassou todas as barreiras que a moral social ou religiosa desejava manter. Seu compromisso, hoje, é com a ética do que eu quero ser e não o que a natureza me dotou. Essa é a verdade indissolúvel da vida atual. A ciência genética herdou, como toda a prática humana, a necessidade de desconstruir valores e práticas políticas, culturais, éticas e artísticas que não aceitem os desejos humanos, por mais incompreensíveis que pareçam.

As obras do artista Pedro Tudela ganham títulos e significados ligados à questão corporal, ou da existência para sermos mais corretos, e são exemplos de uma obra embrenhada na busca de unir fonética com visualidade, como pudéssemos, apenas, com seus títulos, visualizá-las automaticamente, senti-las, tocá-las, como os impulsos cerebrais dos deficientes visuais. Na sua essência, contextualizam aquilo que é permeável ao toque, ao olho, ao olfato, como narrativas das coisas banais. Como isso, Pedro Tudela constrói um mundo de realidades visíveis criadas a partir de sua própria necessidade.

Paulo Reis Rio de Janeiro, Setembro de 2003

(1) Almeida, Bernardo Pinto, Violência visual e crise de linguagem – uma geração sem metalinguagem?, in Transição - Ciclopes, mutantes, apocalípticos (a nova paisagem artística no final do século XX); Lisboa: Assírio & Alvin, 2003. (2) Virilio, Paul, A bomba informática, São Paulo: Estação Liberdade, 1998.

Nota: Neste texto foi mantida a grafia do português do Brasil.