A obra de Pedro Tudela, depois de vários anos de trabalho em que a pintura foi o seu suporte dominante, tem vindo a utilizar o som como material preferencial de muitos dos seus projectos da última década. Na sua materialidade ou representação, o som surge como ponto de partida para a redefinição conceptual e formal do objecto escultórico, pictórico, ou videográfico, para além do uso diferenciado que Pedro Tudela dele faz nas suas actividades paralelas de composição, improvisação, performance e DJing, na sua maioria desenvolvidas com o colectivo @C. O fascínio e a prática da experimentação no âmbito da música electrónica, o seu domínio de conhecimentos no campo das linguagens musicais contemporâneas propiciam-lhe um contexto para o cruzamento de interferências entre o som, a música e as artes visuais.

Ultimamente, a obra de Tudela tem-se centrado sobre a evidência material do objecto, do qual o som e os dispositivos físicos do seu registo ou difusão surgem como elementos compositivos. Deste modo, bobines de fitas para gravador, speakers, fios e cabos surgem incorporados em trabalhos escultóricos, resultando o objecto da visibilidade formal da materialidade funcional destes seus constituintes. Em Sobre, a exposição que o artista agora apresenta no Museu de Serralves, o som resulta do espaço e dos objectos, demarcando e construindo os elementos com que nele nos deparamos. Uma errância intermitente entre situações é proposta ao espectador, sendo o som um elemento condutor das associações e interrupções de percepções e sentidos que as várias obras apresentadas nos propiciam.

A geografia do lugar começa por ser definida por uma estrutura em rede de cabos que pairam sobre os visitantes, onde vários speakers suspensos nos devolvem os sons transformados de registos gravados nos mesmos locais. Dois tempos e dois lugares coincidem: aqueles que confrontam sensorialmente o espectador no presente e aqueles que evocam o tempo e o lugar ocultos no passado que se nos revela a partir dos registos apresentados. A trama suspensa relaciona dois espaços da exposição, aproveitando a arquitectura como suporte da instalação, atravessando-a, com isso suscitando uma interrupção e uma recorrência. Não se torna possível ir de um espaço para outro, se bem que, mais tarde, no itinerário das obras, uma nova perspectiva e consequente percepção do mesmo trabalho seja proposta.

Depois, numa sucessão de quatro salas, encontramos outros tantos momentos de um percurso onde fragmentos de uma narrativa oculta surgem como indícios associáveis a um momento último para o qual convergem. Nas duas primeiras salas, caixas revestidas a vidro translúcido e objectos de vidro constroem situações acústicas originadas pelos dispositivos sonoros que contêm. Uma tensão entre fragilidade e protecção evidencia-se na natureza dos materiais e nas suas formas. Esta tensão deflagra na sua total visibilidade num terceiro momento onde uma projecção vídeo apresenta uma sala de vidro translúcido a explodir. Ao confrontarmo-nos com essa sala, que podemos ver, mas à qual não temos acesso, somos dela isolados por uma parede de vidro transparente. A frieza clínica do seu revestimento de vidro contrasta com a explosão que anteriormente presenciámos. A sala encontra-se imaculada, como se nela nada tivesse acontecido. Contudo, detritos acumulados surgem como vestígio do desastre testemunhado.

A destruição sempre despertou no ser humano a pulsão da ordem, da regularidade do cosmos, da necessária e inseparável antítese de que a relação com o caos se faz eco. A performance tem sido um suporte agenciador de numerosos eventos onde o acidente, intencionalmente premeditado ou não, contrasta com a rotina de um estado das coisas correspondente às expectativas do espectador. O ambiente que Pedro Tudela apresenta em Sobre revela-se de certo modo uma anti-performance. A inacessibilidade do espectador ao cenário apresentado, a dúvida sobre a natureza do acontecimento nele ocorrido, depois do visionamento das imagens que o descrevem, a natureza sonora da explosão e dos seus resíduos acústicos avistados na sala que observamos constroem uma suspeição sobre a condição do real que as imagens nos testemunham. Como se cada espaço, cada imagem resultassem de uma camuflagem, de um efeito, de uma sobreposição onde se oculta uma realidade fria e desamparada.

Pedro Tudela tem ao longo da sua obra proposto um singular universo de sinestesias entre paisagem sonora e percepção visual. É na diferença e na paradoxal coincidência de ambas que os seus trabalhos se fazem eco de uma relação humana com o tempo e com o lugar, oscilando entre a expressão da emoção e o seu controlo. Imagem e som operam como desconstruções sensoriais onde a artificialidade dos seus dispositivos confrontam a condição do corpo perante o objecto ou o espaço, como se fossem próteses supletivas de um evento pós-trauma, do qual não há memória ou registo, mas apenas vestígios.

Daí o labirinto que em Sobre se intui. Como na preposição que os intitula, os projectos de Pedro Tudela surgem como intervalos entre situações ou eventos dos quais se desconhece a verdadeira natureza, dado que jamais são explicitados por um antes ou um depois da sua materialidade visual ou sonora, se bem que despertem a evocação do mistério dos seus contextos ou das suas referências. A cosmogonia resultante destes projectos configura uma “interzone” onde a arte se torna a expressão de uma evidência do humano através do inumano, num mundo digital deceptivo da expressão da emoção, que dela se afirma no entanto sobrevivente na sua dimensão criativa e generativa.

Na obra de Pedro Tudela, entre a imagem e o som, a provocação do lugar resiste à inexpressividade da sua materialização, numa arqueologia da identidade num universo inobjectivo. Ver assume-se como a dúvida de viver, na diluição de sujeito e objecto perante a sua dimensão icónica. Phase 3 Eye can see é o título de um vídeo do artista datado de 1996, onde surge a íris de um olho humano transformada por uma lente que nos observa. O corpo torna-se impensável sem a prótese do olhar. Ver torna-se uma condição indissociável do ser observado. A acção do corpo introduz a suspeita da sua apropriação passiva pela sua redefinição dessa condição “half-cyborg”, para além da relação entre a natureza e o artifício, entre os sentidos e a tecnologia, entre a impressão sensorial e o registo e transmissão de dados. O objecto transforma-se num novo órgão que o corpo incorpora de modo a poder ver o mundo, ou tão-só a si mesmo.

Sobre resulta de uma similar incorporação do espectador na rota artificial com que cada projecto paradoxalmente o envolve e exclui, num exercício de distanciação do corpo em relação à situação espácio-temporal que o instabiliza. Sobre, palavra vazia de sentido que interroga a ordem e a desordem, a construção e a destruição, a acção e a inacção, o tema e o referente, onde a exposição se transforma numa sobreexposição de momentos aglomerados pela fusão fria da imagem, do som, do objecto ou da situação que possam resumir, constituir ou transmitir. O trabalho de Pedro Tudela atinge aqui uma insuspeitada intransitividade, como uma provocação subtil do que de transitivo possa existir no interior de cada um.