Nos últimos anos, as leituras críticas do trabalho de Pedro Tudela têm-se centrado na relação que este artista tem vindo a estabelecer com o som, entendido este a partir da sua potencialidade plástica. Há, contudo, uma série de outros problemas colocados por esta obra cada vez mais minimal na forma e cada vez mais densa nos conceitos. A exposição patente no Museu de Serralves sintetiza o percurso realizado na última década; um período em que uma certa paisagem - abstracta, mental - tem sido reconstruída a partir de silêncios e estilhaços.

O material usado na mostra de Serralves é o próprio museu, não só os seus sons, mas também alguns dos elementos estruturais. Tudela constrói um percurso simultaneamente cumulativo e selectivo. Por um lado, as peças apresentadas relacionam-se entre si, por outro, cada trabalho sofreu uma depuração clínica, determinando o seu próprio território, a que o espectador pode aceder ou não, como acontece na última sala da exposição. "Sobre" é assim uma narrativa sonora e visual acerca do próprio artista, da arquitectura e da possibilidade de se comunicar as experiências vividas dentro desses espaços - o eu, o mundo - ao espectador.

A travessia da exposição principia e acaba no átrio do museu. Ali, sobre ou sob o visitante, conforme o lugar onde este se encontra, uma grelha de fios, na qual se integram alguns altifalantes, espelha quer o chão, quer a clarabóia do edifício desenhado por Siza Vieira. Os sons que se escutam constituem a soma de todos aqueles que, separadamente, se irão ouvir ao longo das outras salas da mostra. Tudela cria desta forma uma introdução que é simultaneamente um epílogo, uma morte por antecipação - e a solução nunca será revelada, pois o humano desapareceu desta progressão formada por ruídos, objectos escultóricos, uma projecção vídeo e uma instalação.

Nesta exposição-ensaio, o artista coloca o espectador no papel de um ouvinte que tenta distinguir cada pormenor sonoro com o qual é confrontado. Existem momentos nos quais só a aproximação do ouvido ao altifalante permite uma percepção clara de cada ambiente proposto por Tudela - as composições de John Cage e a música electrónica de Ryoji Ikeda, Noto (aka Carsten Nicolai) ou Plastikman (aka Richie Hawtin) são referências possíveis para as abstracções que se escutam em Serralves- Os sons surgem não só como raízes, rizomas, mas também como flores, negras, redondas, que pairam sobre um universo em constante mutação.

Tudela, pintor de formação, estabelece um diálogo com a história da pintura minimal - e as figuras mais próximas são Ad Reinhardt e Mark Rothko, que ao deixarem para trás a linha de terra se tornaram etéreos - , com a escultura de Donald Judd e ainda com os conceitos convocados por Dan Graham nas obras em que integra o espectador. Na exposição de Serralves, o artista cria ainda pontes com outras mostras e performances suas, nas quais abordou os temas da morte, do corpo, da memória enquanto vestígio - na última sala de "Sobre", inacessível ao visitante, vêem-se os vestígios de um acontecimento que é sugerido pelo vídeo exibido no espaço anterior; contudo, há algo que sempre falta para se ter a resposta definitiva à pergunta "o que se passou aqui?".

Voltar atrás. Esse movimento exigido ao espectador constitui também uma forma deste relembrar o que entretanto se havia esquecido. As formas e os sons adquirem novas dimensões. Agora, aquela obra já se parece mais com uma proliferação de instrumentos usados em laboratórios; as esculturas assemelham-se a colunas ou a sarcófagos - no centro, no único sítio onde o público não se vê reflectido, é o melhor local para se escutar o som estereofónico - e no fim, no hall, tudo se confunde novamente - à saída, na recepção, ouve-se um som conhecido e, já fora do edifício, o desabitado guichet faz lembrar um dos trabalhos de "Sobre". Transporta-se uma experiência connosco, a de um outro, o artista, que, desde "Mute... Life" (1992), tem revelado as múltiplas formas de um corpo recorrendo ao som e ao silêncio.