Aviso aos navegantes, como este não é um texto jornalístico, está todo em primeira pessoa. Nem classifico como jornalismo gonzo, é um relato, destinado a este espaço somente.

Ontem lá fui eu para Casa Cor, em direção do Encontro com Arte, patrocinado pela marca de cigarros Carlton. Antes do ex ministro José Serra, proibir o patrocínio de eventos culturais por marcas de cigarros e bebidas, foi o Carlton Dance, durante anos, que trouxe o melhor da dança contemporânea do mundo. E Free Jazz, então?

Num país em que um patrocínio é a coisa mais difícil de conseguir, seja pela burocracia das leis de incentivo, seja pelo desinteresse das empresas privadas, deixar milhões de reais, por causa de uma lei, me parece mais burrice, do que boas intenções com a saúde.

Não estou aqui para defender o cigarro, mas cá entre nós, será que um evento com uma marca de bebida ou cigarro realmente induz ao vício? Vocês acham que aquelas fotos estampadas no verso dos maços, fazem com que os tabagistas larguem de fumar? Para isso, é necessário que o viciado queira de fato largar o cigarro e procure um tratamento adequado. Ah, sim! Sou fumante!

Bom, o que eu vi de fato, foi uma bela exposição curada pelo carioca Paulo Reis, chamada Razão e Sensibilidade, onde promove o encontro de cinco artistas brasileiros e cinco internacionais.

Como toda exposição coletiva, destaques e decepções. A primeira sala, a primeira decepção: Ernesto Neto. Uma corda presa em vários pontos da sala segura um saco, daquele de especiarias, e apenas um nó segura a instalação. Por mais, que Paulo Reis faça uma comparação entre a obra e Lygia Clark, aí vão quilômetros e décadas de distância. Depois, apurei que o artista deu uma daqueles, já famosos também no meio, pitis. Não gostou da sala, reclamou que outros artistas tinham salas menores, resultado, fez uma obra qualquer.

Seguindo adiante, a melhor obra da exposição, do jovem artista suíço, Costa Vece.. Uma construção toda feita de papelão, que foi, de acordo com o artista, inspirada na escultura de Richard Serra, House of Cards. Em uma das faces há uma porjeção em loop de uma cena do filme "The Getaway" de 1972, de Sam Peckinpah, uma espécie de lixão. É tão emocionante a cena em contraste com a fragilidade do papelão, tão próximos as casas de mendigos que vemos em todas as ruas. Ele fala de uma sociedade de excesso, industrializada, de precariedade, de habitação.

A obra de Ana Tavares, continuação do trabalho apresentado em 2004, no Instituto Tomie Othake, Midnight DayDreams, só que virtualizado numa imagem 3D. Os vídeos apresentados em plasma, são os mesmos da instalação anterior feitos a partir de imagens em movimento, capturadas em 16mm, há setenta anos atrás, por um capitão da Marinha Mercante alemã, o Capitão Schenk. Mesmo que o virtual e o real sejam um dos muitos embates da artista, desta vez, fiquei curioso por ver realizada a instalação que estava virtualizada. O que me incomodava na obra apresentada no Instituto, parece melhor resolvida no 3D.

O belga Charif Benhelima fotografa de maneira desfocada uma série feita no bairro do Harlem em NY. Mesmo com todas as informações de localização de onde foram feitas as séries, este desfocar revela de maneira poética o que retemos de fato na nossa memória quando visitamos um lugar. Uma série de imagens não muito definidas, de pessoas que aparentemente vimos, mas não lembramos, todos anônimos, todos sem rosto. O "outro" é cada vez uma entidade que não percebemos. As fotos revelam essa faceta moderna do espaço público, cada vez mais privatizado, onde só percebemos os "iguais", os "pares". O "outro" ainda representa, desde a Revolução Francesa, o perigo, e não mais a possibilidade de troca.

Uma interessante instalação tecnológica é apresentada pelo espanhol Daniel Cogar. Projeções, fibras óticas e luzes criam um espaço sensorial com a combinação de corpos celestes, órgãos e células humanas, microorganismos, numa eficiente revelação na comunicação de uma cosmogonia transcendente. Tecnicamente é bom ver quando o aparato tecnológico é inserido em forma de escultura e compõem a obra.

Albano Afonso estende sua pesquisa com as pinturas de luz, pictogramas, já vistas anteriormente. Neste este universo é ampliado com uma série de projeções de obras retiradas de grandes ícones da pintura ocidental sobrepondo o jogo de espelhos e pontilhados existentes e usados como suporte.

A segunda grande surpresa da exposição vem de Portugal, Pedro Tudela. Uma grande sala prateada com tubos transparentes com altos falantes instalados ao chão. Diversos sons saem em diferentes momentos de todos os lugares e não somente dos tubos. Ora você passa pela parede, um som é emitido, outro do teto e vários dos tubos. É claro, que imediatamente, vem a mente o obra de Chelpa Ferro. A surpresa vem deste fato, descobrir outro artista que trabalha na mesma freqüência de outro. Em outras áreas é mais comum, fotografia, pintura, vídeo e mesmo a performance. Mas instalações sonoras onde o próprio som é escultura, são realmente surpreendentes, sem o hermetismo das composições dos músicos eletroacústicos, como Stockhausen, por exemplo.

Confesso, que a obra de Eder Santos me trouxe uma outra visão do artista. Sempre acho que o barroquismo como ele apresenta os vídeos não me atraem o olhar. Quando se trabalha com imagens deve ser cuidadoso com os suportes para não esvaziá-las. Nesta, o olhar do espectador colabora na edição dos vídeos, que tem muitos pontos de observação de uma cena de aeroporto, por exemplo.

Eu tive um pouco de dificuldade para penetrar na obra da irlandesa Orla Barry. A partir do vídeo e da fotografia combinada à performance cria uma narrativa, que pode ser real ou fictícia, mas que pela repetição, torna-se um código comum a qualquer pessoa. Quando vejo este vertente de trabalho, não consigo de parar de pensar em Sophie Calle e como ela me atinge de uma forma tão crua e direta. Algo que a Orla Barry não conseguiu. Mas isso, não quer dizer que não seja interessante, pelo contrário, a primeira imagem que tive, por incrível que pareça, ao contrário da obra de Ernesto Neto, foi Lygia Clark. Acho que é um trabalho para rever e talvez conhecer as outras obras dela, antes de enunciar algo.

E para encerrar, Chelpa Ferro, um dos nossos representantes na Bienal de Veneza deste ano. Como sempre, aquilo que começou como uma performance entre o Luiz Zerbini, Barrão e Sergio Mekler, vem se solidificando como uma dos grupos mais instigantes da cena contemporânea. Nesta obra uma série de alto-falantes que vibram pratos de bateria e acionam um baqueta metálica que gira em torno dos pratos, emitindo um som parecido como fazemos quando com um pouco de água passamos o dedo numa borda de copo ce cristal. A mistura de sons e a o caráter escultórico da instalação são desses momentos mágicos da arte.

Esta é uma exposição que vale a pena ser vista, seja você fumante, antitabagista, fumante passivo. Há Razão e Sensibilidade por todos os lados, mas que tem carreira curta, vai até domingo e é gratuita. Ou seja, você não precisa passear pelos ambientes da Casa Cor, ao menos, que queira ir ao banheiro. Aí, não tem jeito, um labirinto longo de gosto duvidoso, te levam para um alívio.

Encontro com Arte Onde: Casa Cor (av. Mário Lopes Leão, 1.500, SP, inf. pelo tel. 0800-7738288) Quando: qua. a dom., das 12h às 18h; até domingo