Quando se entra na Galeria Graça Brandão, em Lisboa, o que mais surpreende é o som, qualquer coisa que não é habitual considerarmos na visita de exposições, a não ser que ela inclua um vídeo com banda sonora. Não é esse o caso aqui; trata-se de escultura, desenho e instalação de peças que podem ou não incluir um elemento áudio, e é ele que dá unidade ao conjunto, já que este é formado por peças muito diferentes umas das outras.

No piso superior há trabalhos sobre papel: uns, que parecem ser fotografias tapadas parcialmente por papel translúcido colado, e outros, desenhos que substituem em parte o traço geométrico por picotado cosido com máquina de costura; este é depois parcialmente retirado, ficando a folha perfurada com o sinal da linha preta que teve inicialmente.

No piso inferior, a instalação inclui várias peças que possuem dispositivos electrónicos que transmitem o som. O que se passa é que, para ouvir, é necessário que o visitante se aproxime e cole o ouvido a cada peça. Há, assim, um envolvimento sonoro em toda a exposição que é de grau muito maior que o envolvimento visual. Enquanto que, no andar de cima, o tema dos desenhos parece ser a impossibilidade de ver, no andar de baixo, este parece duplicar-se pela possibilidade de ouvir.

Esta fusão entre a plasticidade palpável e a capacidade de ouvir vem percorrendo os trabalhos de Pedro Tudela desde que começou a expor, no início dos anos 90. Neste caso, ela surge também associada a uma certa qualidade poética, à nostalgia de um universo onde todas as artes formariam uma unidade sem conflitos. Nessa unidade, cabe também o espectador. Afinal, é este o propósito de toda a disciplina da instalação.