Uma experiência de envolvimento do espectador: o corpo entre o som e o desenho no trabalho de um artista portuense

Nada ou quase nada vemos quando entramos na galeria, porém o seu espaço está completamente preenchido por um mundo de sons, enquanto, bem discretas na parede, duas ordens de desenhos aguardam o nosso olhar próximo e, lá em baixo, formas e cores começam a convidar o nosso olhar e o nosso corpo.

A surpresa, se surpresa houver, não está nos espaços cheios de variados e contraditórios sons, habituais nos «envolvimentos sensoriais totais» que Pedro Tudela de há muito vem criando. A surpresa está no processo de desaparecimento de figuras e formas. Tal processo encontra-se particularmente bem demonstrado na série de 20 desenhos que nos acolhe, bem como nos 22 outros simetricamente dispostos no espaço superior da galeria. Na primeira série trata-se de imagens repetidamente ocultadas ou obliteradas por uma folha branca que faz as vezes de véu, ou de ecrã; na segunda, mais complexa, todos os desenhos são particulares reafirmações de uma estrutura quadrangular, isto é, do próprio quadro, redesenhado com fios ou a partir deles, marcado por vezes com agrafos ou quase imperceptivelmente gravado. Todos estes desenhos têm, em excepção, um círculo recortado no seu centro.

No piso inferior é quase o contrário que acontece na fortíssima visão cromática e formal de alguns dos elementos emissores de som. Um longo altifalante estendido no chão e dois gigantescos tubos invertidos na parede unem numa mesma presença a permanência da forma e a mutabilidade do som; em contraponto, na parede oposta aos tubos, quatro desenhos de quatro cabeças, ou melhor, da mesma cabeça em suportes diferentes, ensaiam o seu desaparecer. Os suportes — fio de sutura, cabelo humano, folha de ouro e fotocópia (de fotocópia?)—são desafio a um olhar aproximado, quase táctil, para podermos sentir o que resta da sua presença.

Num último contraste, a parede abre-se para um espaço fechado, onde a projecção violenta de luz sobre um canto pintado de vermelho cria uma forma tão violenta e fantasmática quanto se torna denso o material sonoro que, aí muito especialmente, nos invade e domina. Poder-se-ia ler esta exposição como uma metáfora fácil sobre o desaparecimento do formato tradicional do quadro, contraposto à forte e contraditória presença do quotidiano invadindo e ocupando o espaço disponível sem regras aparentes; creio, no entanto, que a subtileza de cada um desses desapareceres tem mais que ver com uma noção geral de ritmo, de contraste e (ou) de contraponto que continuamente muda o nosso ver, o nosso ouvir e o nosso inteiro estar no espaço da exposição, respirando e vivendo como ela respira e vive.