A experiência da matéria dá corpo ao seu trabalho, da pintura às esculturas sonoras. Num percurso de duas décadas, marcado por uma atmosfera conceptual ou pelo investimento tecnológico, cruzam-se as artes plásticas e a música electrónica. Pedro Tudela, 45 anos, revela agora Segredo /Secrert (2+more), na Galeria Graça Brandão, em Lisboa, cidade onde não fazia uma exposição individual há 16 anos

Uma carta é a matriz do Segredo. Gravada, depois dissecada, separada da respiração, dos silêncios da fala, é matéria sonora de quase todas as peças da exposição que Pedro Tudela apresenta na Galeria Graça Brandão, em Lisboa, até 16 de Fevereiro. E ao artista interessa trabalhar «diferentes meios» e experimentar as «potencialidades» dos materiais, dos sons às tintas, do papel ao fio de ouro ou de cabelo à linha de algodão com que coseu à máquina o desenho e lavrou a sua ausência na série de assemblages que inclui nessa mostra. Ou o simples ruído da água a ferver.

Tudela aproveita, de resto, «a multiplicidade de ofertas» do que o rodeia. Durante um longo período, o seu trabalho esteve «preso» ao corpo – até aos seus limites, da doença à morte –, mas não ficou «refém» dessa temática fulcral, ainda que a matéria seja corpo e presente, no centro das suas preocupações. Assume agora a «possibilidade» de não estar prisioneiro de «nenhum assunto ou linguagem», mas livre para a experimentação.

Nascido em Viseu, em 1962, Pedro Tudela fez o curso de Pintura da Escola Superior de Belas Artes do Porto, onde hoje é professor assistente. Começou a expor no início dos anos 80, tendo ainda estudante fundado o «grupo missionário», que organizou várias mostras de pintura e performances. Aliás, no princípio do seu percurso era a pintura que o movia. Mas não tardou a divergir para outras linguagens. Em 1992, no rasto da sua exposição Mute… life, criou um colectivo multimédia com o mesmo nome. Não seria a única parceria em que havia de se meter. O som e a música fizeram-se entretanto ouvir mais alto. Soou o tempo da composição, dos sons esculpidos, das instalações sonoras. E também da investigação: vai iniciar o seu doutoramento precisamente sobre a plasticidade do som. Criou o @c, um grupo dedicado à música electrónica, que tem uma apreciável agenda de concertos. Mas também faz parte do trio Beat Map, do Media Label Crónica ou da Associação Cultural e Recreativa Virose, especialmente empenhada na reflexão sobre a cyberarte. A arte de Pedro Tudela, tanto analógica como digital, é para ver, ouvir e guardar o segredo.

Jornal de Letras: O Segredo revela-se tanto na melopeia de vozes sussurrantes, de sons indecifráveis das suas esculturas sonoras como nas fotografias centralmente ocultadas pelo papel? Qual é o segredo desta exposição?

Pedro Tudela: Os segredos velam múltiplas posições e uma delas será a génese desta mostra. Aparentemente o silêncio pode ser uma consequência da posição sigilosa, pode manifestar o encobrimento, a reserva ou o refúgio. Tanto é íntimo como popular. Não é de nada nem de ninguém em exclusivo. Nesta exposição encobri dados cedendo o que ficam para lá do que é presumível, sobrecarreguei informação perseverando o verdadeiro argumento desobstruído, limpei rastos tanto pelo excesso como pela omissão. E o Segredo é assim mesmo, cheio de tudo o que se congemina, o que é exacto, o que se protege e se congela em paradigmas distintos.

O que unifica a diversidade de peças – fotografias, desenhos, assemblages, esculturas sonoras – que apresenta?

Instintivamente, os diversos segredos. Ou seja, o Segredo. Poder-se-á dizer que efectivamente todas as partes da mostra se vão contaminando e contundindo como que professando ou comungando do mesmo desígnio. Resolvem-se com diferentes terminologias e matérias, para que sejam coerentes com o seu atributo e singular paridade.

Como decide uma exposição? Há uma ideia primordial de conjunto que vai determinando as peças criadas ou escolhidas, ou pelo contrário é a ideia das peças já criadas que arrasta um discurso global?

Normalmente, parto de uma ou mais ideias que vão resultando em trechos que sintetizam a apresentação. Já aconteceu fazer de uma peça uma série de trabalhos em jeito de interferência conceptual, mas que não deu em exposição. As exposições, para mim, são mesmo o engenho que abarca o discurso.

O ‘segredo’ que trazemos quando saímos da sua exposição parece ser essencialmente guardado pelo ouvido. O que particularmente lhe interessa no trabalho com o som?

A matéria e a modelação sonora, associada à plasticização e ao lugar que o discurso sonoro tem no objecto e no espaço. E também a relação que, por vezes, a paridade que o som apropriado, construído ou alterado/manipulado tem com os objectos projectados. Com o trabalho do som, passei a ter um renovado saber do espaço superfície e do tempo, muito marcante na minha concepção plástica.

Da pintura ao som

Como concebe uma escultura sonora? O que determina a escolha dos sons, na sua composição?

No meu trabalho, os sons podem ser seleccionados, criados ou produzidos. Para este(s) segredo(s), usei uma matriz que emanava de uma carta e que passou por várias etapas de trabalho. Captei uma voz a dizer o texto e extraí tudo o que era suspensão, respiração, intervalo e pausa, para obter um ritmo e uma cadência capaz de anular a natural compreensão da narrativa. Ambos resultados (voz corrida, por um lado, e soma das pausas, respirações, intervalos e suspensões, por outro), foram ainda processados com interferências (somas e subtracções digitais), para que o original se aproximasse ao dispositivo/objecto criado. Numa das peças, usei o texto dito, comprimido, debelado e segredado. Noutra usei o que subtraí, acrescentando o efeito tubiforme para que se aproximasse da estrutura que o facturava. Para uma outra forcei o assunto tonal. Outras composições são resolvidas e produzidas com a captação linear do som. Por exemplo a água a ferver. É ainda importante o som generativo que raramente nos possibilita desenhar ou agregar uma imagem estabelecida.

Começou pela pintura, mas nos últimos anos aumentou o volume do som no seu trabalho. Houve um momento decisivo nessa mudança?

Foi a ocasião em que senti que a matéria sonora aumentou o volume, ao ponto de se fazer ouvir e de poder discutir, em conformidade com as outras técnicas e tecnologias que uso para decidir as minhas obras.

O que se revelou primeiro: o desenho e a pintura ou a música?

Não tenho uma referência exacta, mas, a produzir, foi definitivamente o desenho e a pintura que primeiramente tiveram lugar.

O que lhe interessa na pintura? Nas primeiras exposições, apresentava sobretudo pintura, também pela força da corrente dos anos 80?

A plasticidade ou a oportunidade de se poder agregar o gesto à cor e à densidade. Neste momento, o interesse é distribuído pela linguagem tecnológica mais favorável e concordante com a ideia e objecto a construir. Fui conduzindo e desenvolvendo a formação de maneira a poder resolver e compreender para poder nomear.

E a música? Que peso teve ao longo do seu percurso?

A música e o som tiveram vários tipos de peso ao longo do meu percurso. Foi instintiva parceria e inspiração. Também entusiasmo e perfilhação, compreensão e apropriação, adequação e composição. A minha formação musical não é académica, fez-se de todas estas fases. Mas a minha abordagem e desenvolvimento é tão plástica quanto a de um artista plástico, pintor de formação.

Como compõe? Nesse processo converge também a mão do que desenha e pinta? O seu atelier é também um laboratório de sons?

Tenho dois espaços de trabalho, um com características de atelier/oficina e outro com particularidades próximas de atelier/estúdio ou laboratório de som. Apesar de utilizar field recordings, múltiplos instrumentos acústicos e parcerias com diversos músicos, as composições musicais são maioritariamente resolvidas com processos digitais. Instintivamente, tanto para peças (esculturas sonoras), exposições, instalações, como para peças musicais, a visualidade e a plasticidade do som são componentes de assinalável importância no modo de desenhar, esculpir ou mesmo pintar a composição. Envolvendo a co-autoria, a um nível de diálogo aberto e de debate continuado, tenho desenvolvido trabalho de composição com Miguel Carvalhais no projecto @c (www.at-c.org).

Como tem sido essa experiência?

Notável e crescente. O colectivo tem basicamente oito anos de existência, e desde o seu começo tem colaborado de perto com a artista e programadora Austríaca Lia. Esta parceria tem resultado em produções visuais para inúmeras performances/concertos do grupo, instalações multimédia e composição sonora para os seus próprios vídeos. O projecto @c tem sido convidado para diversos festivais e eventos relacionados com música experimental ou festivais de novos media.

Já fundou ou fez parte, de resto, de vários colectivos. O que procura nesses projectos?

Trabalho de parceria e de co-autoria. A inevitável permuta de experiências.

Também integra a Virose. Qual a importância desse projecto?

É mais um projecto onde a afinidade e empatia pelo trabalho desta feita dos artistas plásticos Miguel Leal, Cristina Mateus e Fernando José Pereira é muito grande. Quando da minha aproximação já era um projecto exemplar no desenvolvimento da discussão, divulgação teórica e prática da Netart ou da Cyberart, por exemplo.

Continua a sua actividade de DJ?

Continuo, mas sem residência. As últimas sessões foram especiais, feitas com o Miguel Carvalhais, misturando Noise com Drum and Bass Hardstep, ou exclusivas sonoridades do catálogo da Crónica Electronica.

Que música ouve?

Por fazer parte da Crónica Electrónica, (www.cronicaelectronica.org), e consequentemente ter que ouvir música (demos), o que escuto é tendencialmente a electrónica experimental contemporânea. E não querendo incorrer num lugar comum, literalmente todo o género musical.

A performance marca também desde sempre o seu percurso. Aí, o que lhe interessa?

As encenações conceptuais deram lugar ao espaço estruturado com uma parcela de improviso organizado.

Em Segredo, apresenta uma série de desenhos em que o traço foi literalmente cosido à máquina? O que pretendeu com esse processo? O desenho cerzido invoca a linha que não está lá?

Uma mecânica que só permite a intervenção periférica e aproveita a transmutação da linha objecto em linha forma, do volume em debuxo ou do controlo em ocorrência. O espaço desocupado é gerido pelo segredo da falta, do ónus do vazio. Substâncias aproveitadas como o cabelo humano, a linha de algodão ou a linha em folha de ouro emitem um resultado que divulga o sistema.

O seu trabalho já cruzou temáticas recorrentes como a morte, a doença ou os ambientes hospitalares. Porquê?

Os segredos por vezes são desvendados. O saber e a experimentação permitem diligenciar o conhecimento.