UMA JANEL A ABERTA PAR A DENTRO

É o discurso de uma vontade grande de estar. De dar continuidade. Sabe que há relâmpagos suspensos sobre o coração. Que o acidente pode acontecer. E que tudo pode ser ruína, à nossa passagem.

Pensemos uma caixa. Coberta de recortes do espaço onde ela se inscreve. O que nos oferece? A leitura detalhada desse corpo circundante. Cheia de momentos, retalhos. Poderíamos chamar-lhes janelas que se abrem para a memória do lugar. Era assim a instalação que Pedro Tudela, antigo estudante da Universidade, fez no Salão Nobre do Teatro Nacional de S. João (TNSJ), no Porto. Chamou-lhe “Salão +/- Nobre”. Os trabalhos do olhar recaíam sobre o pormenor em detrimento da visão periférica. Como a que teríamos em frente a um grande areal de praia… Reflectir o espaço como matéria de história. Não andará longe disto o exercício a que nos propomos. Abrir algumas janelas para olhar para dentro. Espreitar a intenção do autor. Espreitar para dentro do corpo e perceber o que o move. Ir ao avesso, sim. Como ele faz com quase tudo em que mexe, obedecendo a um impulso de honestidade cirúrgica. O “Salão +/- Nobre”, de 2004, revisitou uma ideia já explorada num outro espaço, outro tempo. Musculou uma lucidez dorsal: a consciência do contágio. Que não é só permeável à meteorologia das paixões (sempre incerta), ou só faminta de territórios novos em nome da coerência da obra. É a própria obra que se vai contaminando. As informações vão-se acoplando, obedecendo a uma espécie de processo magnético. Em 1992 recorreu, pela primeira vez, a programas digitais para montar uma exposição: “Mute… life”, que viria a resultar em projecto com o mesmo nome. Para esta exposição recorreu a pequenos fragmentos de metro quadrado que se inseriam numa espécie de malha, ou grelha, implantada no espaço e parcialmente ocupada com pinturas.

Potencialidade plástica do som

Diz que ainda pensa como um pintor, mas é num território de contágios que o gesto entra em casa. É a sua zona de conforto. Com a exposição de 1992 surge a necessidade de convocar outras pessoas para resolver um problema. Já há muito que lhe interessava a potencialidade plástica do som, a matéria sonora enquanto atmosfera que abraça uma ideia, mas faltava-lhe o know-how necessário para resolver o objecto sonoro. Pediu ajuda a dois artistas (Pedro Almeida e Alex Fernandes). A exposição concretizou-se e o trabalho em conjunto prosseguiu. A partir daqui, se nunca abandonou a pintura, também nunca mais se separou da plasticidade do som. “O som entrou como matéria de trabalho e influenciou a forma como construo a pintura. Nas últimas pinturas, o processo de construção, acumulação e contágio tem tudo a ver com o que fui assimilando e com a forma como o som foi entrando no meu trabalho”.

Pedro Tudela evoca o som, a tinta, a tela, o papel, a madeira, o ferro, todo o tipo de materiais que considerar pertinentes para que a ideia se cumpra sem receio da perda de identidade de cada um. “O conjunto dessas relações produz a ideia e o novo objecto plástico. Isso é que me interessa”. Mas sem mascarar. “Representar não cabe dentro dos parâmetros do meu trabalho. Lá está… Não havendo essa necessidade, assumo por completo os materiais”. Realmente importante, e aqui abrimos mais uma janela para o corpo estruturante, “é não ficar refém de materiais, nem de nenhum tipo de linhagem”. Refém apenas da coerência, nomeadamente no modus operandi.

O relâmpago em suspenso

A ideia de acidente tem atravessado vários trabalhos. “Quando se nasce, mesmo que não se tenha essa consciência, tem-se a certeza de que a existência acaba. E é uma certeza maioritariamente associada a uma ideia de acidente, ou interrupção de um objectivo. Durante a minha vida tenho tido acidentes muito próximos, excessivamente próximos, todos eles muito presentes e, como dentro do que é a hierarquia de elementos a trabalhar, a questão da representação não está presente, mesmo que a obra não reflicta completamente a questão da vida, naturalmente, o autor está lá”. Um dos momentos em que a ideia de acidente se concretizou foi em 2001, com “Target”. “Por um lado a contaminação… As telas foram-se construindo mutuamente. Enquanto estavam frescas juntavam-se umas às outras e eu aproveitei o acidente da técnica enquanto resultado de um determinado impulso, ou vontade”. Há composições sonoras que obedecem ao mesmo processo. “Capto sons que são depois contaminados por processos digitais, de acumulação, de recorte, de colagem, etc. … O que também está associado a uma construção plástica”.

“Final – Mente” foi o título de um outro trabalho divulgado no jornal Público. O corpo do artista surgia caído. Morto. Com um ferimento de bala na testa. Puxou o lustro ao conceito de coerência. O título acrescenta ao trabalho que aborda a ideia do artista inserido no seu meio. A legenda diz que “finalmente foi encontrada a maior base de dados da obra do artista plástico Pedro Tudela”. Isto porque há sempre informação que fica para lá do que é visto através do objecto. Que existe no criador e que não está à pele, inclusive, acrescenta Pedro Tudela, “a possibilidade de uma espécie de corpo… O corpo que todos temos, como se fosse um habitáculo onde essas coisas estão armazenadas”. A memória também se arrasta sobre a pele. Chama-lhe “corpo mutante, que se vai alterando, envelhecendo, desfazendo e definhando”, mas que “não deixa de ser um armazém, uma acumulação de todo o tipo de informação”. Aleluia, ou que o final também pode mentir são outras possibilidades de leitura. Associadas a cada olhar. Seja qual for o resquício na memória, é sempre preferível à sua ausência. Há trabalhos que correspondem à acção do momento. Outros permanecem no tempo e no espaço. “É curioso pensar que estamos a ocupar um espaço, a usar tudo… Temos uma espécie de magnetismo, as coisas vão-se acoplando à nossa vida, ao nosso corpo… E nós, enquanto corpo, acabamos”. O que fica, então?

“Estamos a concretizar ideias que permanecem. Felizmente, tenho um projecto de vida. Assusta-me é a impossibilidade de o poder fazer. Gosto de viver e ocupo o espaço com o tempo em que se está”. Enquanto houver. “Possivelmente já não terei o mesmo tempo… E isso poderá contaminar também”. Pedro Tudela é artista plástico e docente na Faculdade de Belas Artes da U.Porto, onde tirou a licenciatura em Pintura. Nasceu em Viseu, em 1962, e é desde pequenino que tem um “pecúlio pessoal de ferramentas”. Era a ele que cabia resolver os problemas de electricidade lá em casa. Desde 1982 que expõe regularmente. No país e fora dele. A lista de projectos é infindável. Para além das artes plásticas/instalações e da produção sonora, também faz cenografia (para o TNSJ). Colabora com o Grupo Virose, é co-fundador e um dos elementos do projecto de música electrónica @c (com Miguel Carvalhais) e um dos elementos da media label Crónica. Vive no Porto e tem um atelier “na rua das ferramentas”, embora nunca se lembre do número... “A alma é húmida” foi o texto que o escritor Al Berto lhe dedicou. Também lhe poderia ter dito que “há uma cidade por baixo da pele e uma casa de sangue coagulado na memória atravessada por canos rotos e um corpo pingando mágoas”. O mesmo que disse ter conhecido, um dia, um homem com “cabeça de vidro” e “olhos de açúcar”. E que era no silêncio que melhor ludibriava a morte.

Nota: Excertos poéticos retirados de O Medo, de Al Berto.