Portugal Emigrante

Na mais recente geração de artistas portugueses, Pedro Tudela ocupa um lugar que necessariamente haverá que ter em conta: não apenas o seu trabalho dá conta de uma postura original, como sobretudo o faz inscrevendo-se numa via pouco frequente, pelo menos entre nós. Ele dá fotomatons de situações, enfocando-as a partir de um ponto de vista deliberadamente irónico – satírico até – sem que formalmente redunde no anedótico ou na imagem de imediato consumo.

As suas exposições vêm-no provando de modo cada vez mais evidente, retomando uma memória de raiz pop – através das referências a situações e imagens imediatas, e através de delirantes colagens de objectos banalizados e logo transfigurados -, actualizando-a numa exuberante encenação de ressonância barroca que progressivamente dilui as fronteiras entre a pintura e a escultura, restituindo a cada trabalho uma dimensão de objecto que é ao mesmo tempo paródia de uma concepção da arte como coisa demasiado séria, e séria desconstrução dos condicionalismos que se nos colocam – por deformação cultural e ideológica – no modo de olhar a própria arte.

Pintar ou esculpir deixa aqui de ser um ofício de cavalete, uma vez que suporte e técnicas são subvertidas à partida: pode pintar-se com sobreposições de objectos e envolver tudo com tinta – quanto mais fosforescente, melhor – pode recuperar-se o prazer de fazer (e de ver) imagens através da utilização de quaisquer materiais, e sem que este trabalho seja conotável com qualquer perspectiva próxima da arte povera, ou de uma pintura de vocação denunciante e crítica (como acontecia com a pop). Aqui o que possa estar em questão será quando muito o próprio cliché do pintar enquanto operação surgida de complexa laboração, para redimensionar o jogo da obra numa perspectiva da arte “ao alcance de todas as mãos” (como Ângelo de Sousa o chegou a praticar já lá vão mais de quinze anos) ou como certas atitudes igualmente remotas de “Os Quatro Vintes” (mormente de homenagem a J. d’ Óbidos).

Tudo parece organizar-se a partir de uma concepção que é primeiramente lúdica, e que se oferece na imediata transparência do seu gesto generoso e irónico, da sua despreocupação quase dandy, num olhar sem preconceitos de equívoca moralidade, antes em serena aceitação alegre de um mundo que se oferece na desmesura da sua densidade e diversidade.

Já assim acontecia com “Vulcões e Vulconas” – a sua anterior mostra – assim prossegue agora através desta, “Portugal Emigrante”, e já se esboça em novas fantasias nos trabalhos posteriores a esta série: em Pedro Tudela este modo de ir produzindo séries é um jogo ainda de sábia preguiça.

“Portugal Emigrante” através do seu itinerário, desde a “Ascensão” até à “Bica”, passando pela “Maison de ma cousine Teresa” é ainda um divertidíssimo inventário de situações que ancoram no tecido social português, com a inocência e o sarcasmo da boa comédia, sem o simplismo da frouxa anedota: antes o olhar terno e distante, cheio de cumplicidade, para um modo de estar que bem dispensa a sabichona atitude burguesa dos que o criticam por provinciano: porque não amar, com ironia e com ternura, com distância e divertimento, mas sem amor deveras, esses sinais parolos de um universo cultural kitsch e de dúbias referências? Porque não glorificá-lo e fazer-lhe o retrato inocente e divertido, sem esconder a fascinação que tudo isso tem: as policromias dos postais, as miniaturais vénus de milo, os “souvenirs”, e, sobretudo, o intenso sentido da encenação, o delirante cenário visual de acumulação barroca de que tudo isso vibra?

Essa a coragem e o fascínio deste trabalho que não renega nem critica nem despreza, antes recebe, enumera e reelabora os “sinais exteriores” de uma “riqueza” breve, efémera, ingenuamente ostentatória e deliciosa, felizmente, nossa.

Porto, 1 de Maio 1986

Texto da exposição “Portugal Emigrante” inaugurada a 4 de Maio de 1986 na Galeria Roma e Pavia, Porto