“...flexo”, 2005

“Edgard Varèse disse ao jovem admirador Morton Feldman, que pensasse na música como um arranjo de objectos no espaço, e para nunca se esquecer do tempo que qualquer som levava a atravessar uma sala de espectáculos.” Alex Ross

Pintura de reflexo, posição e lugar.

A palavra reflexo pode significar indirecto, repetição ou reverberação, mas também pode acomodar vocábulos como inconsciente, instintivo, involuntário (que se faz sem consciência do facto). Se da palavra reflexo retirarmos o predeterminado “re”, ficamos com algo que deixa de ter a conotação de duplicação e ganha uma certa autonomia de resultado.

Apesar de muitas vezes ter envolvido componentes volumétricas nas produções pictóricas, todas elas surgiam do plano/suporte invariavelmente bidimensional e todos eles ditavam (em conjunto com o plano onde estavam acoplados) o espaço associado à sua própria volumetria e matéria. Surgiam como formas apropriadas, (com uma missão conceptual articulada com a ideia) e desprovidas do deliberado decalque do real. Para quê reproduzir com diferentes matérias o que se pode utilizar de um forma directa? A criação, e a correspondente construção do objecto plástico, afastam-se da mera representação do assunto. Questões próximas das posições, como a apropriação, a colagem, a manipulação ou a adopção do acaso encaminhando os “erros” e/ou os “acidentes”, acabam por ser condições que se vão conservando e replicando nos meus trabalhos. O facto de não estar preso a soluções técnicas e estéticas estanques, permitem-me expandir preocupações ligadas ao pensamento.

Ao decidir desenvolver a inclusão e utilização da matéria sonora no meu trabalho plástico, apercebi-me que os assuntos relacionadas com espaço estavam cada vez mais evidentes no termo das obras. Como tal, essa componente passou a ser uma verdade que não se impõe, mas que se assume como um dos elementos iniciais do pensamento, contrariando, assim, apenas o estatuto obrigatório que tem na finalização, no resultado e/ou na mostra. Não se encerram as perspectivas do desenvolvimento plástico com uma série de parâmetros ou preocupações que se vão repetindo. Creio mesmo, que com esta reiterada consideração, o desenvolvimento assenta no crescimento sedimentado dos resultados. Com esta acção, não ajuízo que se desminta tudo que ficou para trás.

Esta pintura faz parte de uma série intitulada “...flexo”. Todos os trabalhos desta série, partiram de verdades ligadas ao “reflexo”. Temos superfícies que pela sua composição ou pela sua matéria são reflectoras. O resultado é o que apuramos, por exemplo, quando olhamos para um vidro, para superfícies de alto brilho e, naturalmente, para um espelho como exemplo máximo do efeito. É uma espécie de resultado/consequência. Temos objectos que, pela sua missão ou função, estão ligados ao reflexo. Seja porque suportam matérias ou superfícies do género das que foram apontadas anteriormente, ou porque encerram em si funções replicadoras.

Estes pré-conceitos estiveram patentes na construção das várias obras desta série. Senão vejamos: a tinta utilizada é gorda e tem brilho; as várias sobreposições, camadas e sessões não negam nem descartam os tempos e as decisões anteriores; a composição relaciona-se estrutural e formalmente com elementos e posições do resultado dos reflexos; finalmente a colocação dos dois planos assumidamente lisos acentuam a visibilidade e o efeito revérbero.

É uma pintura sem forma nem fundo declarados. As formas revelam-se através de um processo construtivo como se um descarnar da superfície e da matéria se tratasse. É uma área cujo fundo se descobre da soma dos gestos ou da subtracção das leituras desses mesmos somatórios. Uma pintura que, com esta forma de pensar e de agir, divulga e encobre as camadas e as sessões na consequência e conclusão, tanto na superfície do suporte físico como no suporte lugar expositivo. É, por isso, uma pintura que respeita os materiais na escolha, na eleição, na colocação e na disposição desses agentes.

O gesto é explicado no resultado. Por vezes é o resultado do jeito da própria tinta e não da normal conjugação/relação da ferramenta e o material utilizado. Ou seja, o movimento (gesto) resultado, não é sempre plenamente dominado pelo “obreiro”, mas sim pelo próprio mecanismo utilizado.

O suporte é uma espécie de “objecto” magnético, onde converge tudo o que é pensamento e prática. Como tal, o suporte passa a ser a soma do método e da reflexão que pressupõe o resultado. Fazendo analogismo com 4’33” de Cage, tudo o que é som circundante ou envolvente passa a fazer parte da obra desde o dia 29 de Agosto de 1952. Hoje, se tivermos oportunidade de ver/ouvir uma reposição desta peça, não teremos rigorosamente os mesmos sons que foram emitidos e assimilados (com mais ou menos consciência), mas teremos seguramente o mesmo poder magnético de absorver, incorporar e acoplar tudo o que está à sua volta.

Veja-se pois, uma pintura que vive e declara o espaço sem o figurar. Uma pintura que parte do som e afirma o som, sem ter a vontade de o imitar. Uma pintura que acumula e agrega, termos e dados mas que se despe na subtracção.