A linha do horizonte é uma metáfora que corporiza a utopia. É um u-topos que se materializa na nossa cabeça pala visão e que formalmente se apresenta como uma perpendicular perfeita à nossa verticalidade. A linha do horizonte é, portanto, uma linha horizontal. Espécie de fronteira entre o conhecido e o desconhecido, foi dando corpo a sagas e epopeias. Mas não aqui. Num gesto simples e esclarecido Pedro Tudela retira toda essa carga à sua peça. Ao rodar a linha do horizonte 90º alterou tudo. E ainda bem.

A imagem quase abstracta que criou conduz-nos para outra preocupação mais intrinsecamente ligada ao nosso tempo: o Tempo.

Num tempo comprimido para medidas digitalizadas, o que esta obra propõe é um relacionamento aparentemente obsoleto com o Tempo já que exige paragem e, ao fazê-lo, se remete a uma postura que, apesar de arredada de toda a produção artística moderna, ganha agora uma nova possibilidade de sobrevivência: a contemplação. Trata-se de introduzir um tempo de paragem que é a única forma de a obra dialogar com o espectador apelando à reflexão e, todos o sabemos, não há reflexão sem tempo. Chamemos-lhe, então, contemplação activa. Pedro Tudela convida o espectador a contemplar uma imagem que remete para a vulgaridade de um qualquer pôr do sol no mar e, contudo, este mar e este movimento de translacção da estrela, aqui na horizontal, são imbuídos de uma estranheza que se entranha e que é, como dizia Freud, ao mesmo tempo familiar. Uma obra que na sua aparente simplicidade esconde uma estrutura complexa. Que se afirma de forma ainda mais declarada se pensarmos que, ao que já foi referido, teremos, ainda, que acrescentar o jogo complexo que é introduzido pelo vidro espelhado que divide a imagem em duas e que, ao mesmo tempo, a multiplica e fragmenta percetivamente.

Trata-se, pois de um trabalho que afirma a sua soberania como obra de arte num contexto que lhe é adverso e que, inteligentemente, dialoga com o espectador na sua forma peculiar de comunicar, quer dizer através da inteligência que lhe é inerente por ser intrínseca ao seu autor.

Uma obra que resgata, pelos argumentos expostos, o poder da arte como possibilidade discursiva, desinteressada no consenso da comunicação e que, por isso mesmo, se afirma com a vitalidade de uma intrínseca ideia de dissensão que lhe dá a razão de ser, isto é, a sua absoluta singularidade. E ainda bem.

Os Descobrimentos e as Origens da Convergência Global - livro/catálogo do novo Centro Interpretativo "O Infante D. Henrique e os Novos Mundos"