Viagem no tempo com Pedro Tudela

Desde o dia 19 de Dezembro, o Espaço Mira conduz o espectador ao trabalho mais recente de Pedro Tudela, convidando-o a realizar uma viagem entre espaços e tempos.

Professor na FBAUP, Pedro Tudela, enquanto estudante dessa mesma instituição, foi, em 1981, cofundador do Grupo Missionário, através do qual organizou exposições de pintura, performance e arte postal a nível nacional e internacional. Em 1992, fundou o coletivo multimédia Mute Life dept. na ocasião da exposição Mute ... life, na Galeria Atlântica do Porto. Nesse mesmo ano começou a explorar uma carreira musical.

Com uma estética muito própria e um nível extremo de experimentação de formas e práticas, este reconhecido artista é um dos grandes nomes da arte de instalação em Portugal. No seu trabalho, verifica-se o alcance da expressão do sensível através de processos tecnológicos e o entendimento do som a um nível plástico.

Na exposição agora patente, a sua obra tanto habita o espaço como o absorve por completo. Desde a música que se propaga por toda a área até à iluminação vermelha, desde as imagens fixas nas paredes à projeção de outras em fluxo, a galeria altera-se por completo e ganha uma nova vida que, apesar de tudo, conhece o fim, ou seja, a morte. Nas fotografias impressas em alumínio, apresentam-se indícios e vestígios do corpo, e do desaparecimento deste, objetos de natureza-morta, testemunhos de atos de violência e, em última instância, a própria morte.

As imagens expostas sob uma luz vermelha mostram-se afastadas da realidade, parecendo apenas excertos desta, de um passado, de uma ocorrência que já foi. Para os praticantes da técnica fotográfica, esta luz reporta-se, inevitavelmente, ao laboratório de fotografia, ao momento em que se revelam os negativos que detêm as imagens criadas com a câmara. É, também, neste mesmo ambiente concebido na galeria, que se revela a imagem ao espectador comum. Somente num movimento de aproximação e deslocamento, com um olhar curioso e atento, as imagens se tornam visíveis, uma a uma, detentoras do seu próprio lugar e proporcionando múltiplas e singulares perspetivas. A ação do observador e a sua participação tornam-se cruciais num percurso que eleva a fotografia a algo mais do que uma imagem imaterial, concedendo-lhe uma dimensão objectual. Assim se observa como esta técnica de produção ganha uma forma quase escultórica, quando explorada nas suas mais altas capacidades.

Para os mais familiarizados com a fotografia, estas produções lembram a obra de Joel-Peter Witkin. O preto e branco, a apresentação de espaços doentes, a aparição de partes do corpo deslocadas e até a caveira, tão presentes no trabalho do fotógrafo americano, marcam, igualmente, presença na obra de Tudela. Contudo, nesta ocorre de um modo distinto, já que se apresenta numa construção equilibrada, com áreas de intervalo entre cada uma das fortes representações, de modo a proporcionar uma leitura mais harmoniosa. Distingue-se, também, nestas peças, um outro nível de profundidade conceptual, sendo esta série de 16 fotografias apenas um excerto do trabalho global de Tudela. O conjunto é aqui constituído por vários elementos bem articulados que suavizam o carácter moribundo inicialmente presente.

Essa expressão e leitura global da obra estendem-se pelo resto da sala e, em oposição à primeira parte, surgem ativas, dinâmicas, em ritmo, através de vídeos que, numa composição como se fossem pixéis de uma imagem, criam um grande plano de ação e movimento. Em cada um dos 166 vídeos da autoria de Tudela, apresentam-se pequenos momentos, fragmentos de memória que contam histórias ao som da melodia da música de Léo Ferré, cujo nome Avec le Temps dá título à obra. Um som que, apesar de carregar tristeza, não contagia pela negativa quem o ouve, pois é contraposto pela animada sucessão de imagens que se anunciam. Numa agitação ordenada pelas linhas verticais e horizontais, vários tempos são condensados numa espécie de jogo de puzzle, feito quase ao acaso, acelerado e diversificado, tanto colorido quanto monocromático, com presenças e indícios da natureza e do homem. Aqui, a obra já não remete para a morte, mas torna-se inteiramente viva e fornece múltiplas viagens no tempo do artista.

Para que o espectador consiga observar atenta e individualmente cada vídeo deve, mais uma vez, aproximar-se, sendo que a sua sombra também passa a ser projetada nas paredes. O público é, assim, incitado a entrar na obra e a sentir-se parte desta ou, pelo menos, a reconhecer que um rasto seu lá passa. É deste modo que, curiosamente, é concretizada a oportunidade que é dada de fazer parte desta fracção mais viva do trabalho, de um modo único e fantasmagórico.

Num segundo momento, que será em Janeiro, chegará ao Espaço Mira uma outra presença corpórea, prolongando essa mesma dimensão obscura que será preenchida pela voz de Léo Ferré, completando assim a melodia agora reproduzida e provando que o trabalho é um todo, em que as partes se complementam. Nessa ocasião, Tudela irá construir, com o curador José Maia, um site-specific que transportará o Espaço Mira para uma nova dimensão. Anuncia-se um jogo de linhas, luz e sombra, num palco onde as forças de presenças ausentes se confrontarão e se afirmarão em duas cadeiras. Esta outra galeria irá convidar o espectador a um percurso que funciona como uma transição espacial e temporal, numa dinâmica que conduz à mais sombria experiência desta exposição. A instalação e a forma escultórica evocam o tempo e a memória, mostrando uma outra abordagem possível a esta complexa temática.

A interpretação destes elementos vivenciais e a exploração do médium fotográfico, do vídeo e do som, levados ao seu expoente máximo, tornam esta exposição altamente inovadora e contemporânea. Quer esta quer o universo criativo do artista serão ainda desvendados numa conversa entre o próprio e o artista João Sousa Cardoso, dia 30 de Janeiro, no espaço da exposição.

Pedro Tudela mostra-se um criador consciente do seu tempo e da aceleração da vida e dos acontecimentos refletidos na profusão imagética que nos interpelam diariamente através dos média. Esta característica dos tempos atuais é entendida pelo autor em contraposição a uma paralela perda de partes que nos constituem, a um abandono da história, do passado e do que já fomos, numa constante vontade de nos superarmos.

Torna-se, assim, importante viajar e percorrer o Espaço Mira, no Porto, em Campanhã, até ao dia 30 de Janeiro, para conhecer a proposta atual e imperdível de Pedro Tudela, tão pessoal para o seu autor tal como para cada um de nós quando dela nos apropriamos.