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Eco como som produzido por uma reflexão, como som indistinto, rumor ou ruído; eco como prefixo: (eco)logia, palavra, discurso, linguagem, teoria; (eco)grafia, escrita, registo, estudo; (eco)nomia, regra, lei, uso; (eco)sistema, conjunto, grupo, combinação.
Algures entre São Miguel e a Marinha Grande — lugares onde Pedro Tudela trabalhou em residência nos últimos meses — desenha-se a geografia líquida que deu origem ao projecto expositivo agora apresentado na Galeria Kubick e que integra suportes tão diversos como objecto escultórico, escultura sonora, desenho e fotografia.
Peças de vidro soprado sobre tábuas de madeira devolvidas pelo mar; pentagramas musicais como rasgos na paisagem costurados à máquina de coser com linha preta; as folhas de papel molhado que faz sobressair, em negativo, manchas, traços, sobreposições, desvios à grelha; objectos quase simétricos que se dispõem na parede em falso equilíbrio e em tensão oculta; imagens fotográficas que se desfazem em lava ou se rarefazem em névoa.
A exposição abre com uma escultura sonora, definindo desde logo um modo perceptivo particularmente imersivo e em reverberação espacial que opera “uma reunião das intermitências compreendidas entre dois limites sonoros” — para citar a bela e justa frase do próprio autor.
Não é insignificante que entremos na exposição pelo som [podemos fechar os olhos mas não podemos cerrar os ouvidos]. A composição — uma extensa malha sónica que teve origem na gravação de gotas de água a cair num ralo no interior de uma estrutura arquitectónica em madeira — estabelece a estrutura conceptual de toda a exposição: enquanto eco, em modo de imitação, recordação ou vestígio, em falsa simetria ou rebatimento, como repetição de um som reenviado por um corpo. O nosso corpo.
Como todas as intervenções de Pedro Tudela, “> e(c(o <“ é desenhada com um rigor geométrico não euclidiano. Quer dizer, em ínfimo delay ou em falsa simetria, num jogo de ecos que questiona, na duração e na extensão, isto é, nas dimensões espacial e temporal, “a capacidade do lugar (do sítio) se tornar numa outra coisa, seja pela relação do plano no espaço (factos que se sucedem uns aos outros) como pela comparação, que naturalmente fazemos, entre duas ou mais quantidades desiguais”.

Nuno Faria

Photos ©Rita Castro

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