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Centro de Artes Contemporâneas Graça Morais, Bragança

Pedro Tudela (Viseu, 1962) has developed his artistic path over the exploration of multiple connections between the sound and visual fields, which he materialises from the use and combination of very different means of expression, such as painting, design, photography, sculpture and installation.
Taking advantage of what interests him in every medium, his work is an indicative of a territory of relationships, contaminations and accumulations, all of them established between the visual field and the plastic potential of sound, which, as an abstract and immaterial element, gets reaffirmed in a frequent and transversal way in his interventions.
Incorporated in many of his sculptural pieces, the sound has gained, as manipulated matter, not only the status of invasive and complementary component, but also of a sort of extension of images and objects, simultaneously opening the work to sound and plastic atmospheres set apart from any previous narrative or endeavour to illustrate or represent a specific reality.
Each work is the result of unexpected conceptual and formal associations, performed from the careful reuse of a plurality of objects or fragments, such as bathtubs, tables, wooden pallets, wheelbarrows, bird nests, tree branches, and their intersection with sound mechanisms.
Physical devices, such as speakers and a whole plethora of cables and other diffusion mechanisms, incorporated in the sculptural works, emerge in association with a range of materials or fractions of everyday objects, which – without losing the matrix that refers them to their original functions or without ceasing to represent themselves – now point simultaneously to a new position of relationships, to a new morphology, that often transfer them to zones of accentuated abstraction. It is precisely from such new and unusual connections that an idea, a purport, a new plastic object and a new reading code are produced.
The confrontation with his works triggers the experience of a transgressive and even paradoxical condition, activated by the rarity of the transformation or even the natural reversal of direction between materiality and the semantics of either the objects or sounds. These declinations of the natural order of things originate in the visitor, even if briefly, a duality of readings between what memory tries to recall and the new reality that now becomes present before one’s eyes.
All the space in which he operates, as part of his work, is in connection, either by reverberation and propagation of sound, either by the visual complementarity of different elements that – without cancelling their individuality and autonomy or becoming trapped in the space they occupy – coalesce, disperse, relate and condense therein, provoking in the viewer a variety of perceptive and sensory experiences.
The interdisciplinarity, inherent to the heterogeneity of the means he mobilizes, to his work process, and to the positioning in each of the different artistic typologies, largely deviates his work from any attempt of a rather traditional categorisation.
Far from technical and aesthetic closed solutions, and open to all kinds of incursions, the works by Pedro Tudela have rather a filiation to processes that repeat, (re) contextualise and reconfigure themselves, such as the idea of error, accident, manipulation, appropriation, composition or fragment; those concerns that are often at the centre of his reflection and his field of action.
The Word < pre >, which entitles the present exhibition, points out, somehow, to a revisiting or a retrospective look upon the broad and multifaceted artistic work already produced, or "pre-produced" by Pedro Tudela; at the same time, it underscores the importance that the appeal to codes of virtual language, digital error and suspended word has had in his work.
Nonetheless, the recovery of old pieces originating from different periods and other contexts, capable to vindicate sometimes the site-specific condition, deviates his work from an anthological dimension, since, in its recontextualisation related to a new space, each visual or sound work conveys a renewed web of relationships, and prompts to other readings, to new contexts.

Jorge da Costa

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O percurso artístico de Pedro Tudela (Viseu, 1962) tem vindo a desenvolver-se sobre a exploração de múltiplas conexões entre o campo sonoro e o visual, que materializa a partir da utilização e combinação de meios de expressão muito diferentes, como a pintura, o desenho, a fotografia, a escultura e a instalação.
Tirando partido daquilo que lhe interessa em cada medium, a sua obra é indiciadora de um território de relações, de contaminações e acumulações que se vêm estabelecendo entre o campo visual e a potencialidade plástica do som, que, como elemento abstrato e imaterial, é presença cada vez mais assídua e transversal nas suas intervenções.
Incorporado em muitas das suas peças escultóricas, o som tem vindo a adquirir, como matéria manipulada, não apenas o estatuto de componente invasor e complementar, mas também de prolongamento das imagens e dos objetos, abrindo simultaneamente a obra a atmosferas sonoras e plásticas apartadas de qualquer narrativa prévia ou tentativa de ilustrar ou representar uma realidade específica.
Cada obra é o resultado de inesperadas associações conceptuais e formais que realiza a partir da criteriosa reutilização de uma pluralidade de objetos ou fragmentos, como banheiras, mesas, paletes de madeira, carrinhos de mão, ninhos de pássaros, galhos de árvores, e da sua interseção com os mecanismos sonoros.
Os dispositivos físicos, como altifalantes e toda uma profusão de cabos e outros mecanismos de difusão que incorporam os trabalhos escultóricos, surgem associados a uma panóplia de materiais ou frações de objetos apropriados ao quotidiano que, sem perderem a matriz que os remete para a sua função anterior ou deixarem de se representar a si mesmos, apontam simultaneamente para uma nova posição de relações, para uma nova morfologia, transferindo-os, não raras vezes, para zonas de demarcada abstração. É do conjunto das novas e inusitadas ligações que daí advêm que se produz a ideia, o conteúdo, o novo objeto plástico, um novo código de leitura.
O confronto com as suas obras desencadeia o experienciar de uma condição transgressiva e até paradoxal, ativada pela estranheza da transformação ou até da inversão natural de sentido entre materialidade e a semântica quer dos objetos, quer dos sons. Estas declinações da ordem natural das coisas originam no visitante, mesmo que por breves instantes, uma dualidade de leituras entre aquilo que se procura relacionar através da memória e a realidade que agora se presentifica diante de si.
Todo o espaço em que opera, como parte integrante do trabalho, encontra-se em conexão, seja pela reverberação e propagação de sons, seja pela complementaridade visual dos distintos elementos que, sem anularem a sua individualidade e autonomia ou ficarem reféns do espaço que ocupam, aí se aglutinam, dispersam, relacionam e condensam, convocando o espectador para as mais variadas experiências percetivas e sensoriais.
A interdisciplinaridade, inerente à heterogeneidade dos meios que mobiliza, ao seu processo de trabalho, bem como à tomada de posição em cada uma das diferentes tipologias artísticas, afasta, em grande medida, a obra de qualquer tentativa de categorização mais tradicional.
Arredada de soluções técnicas e estéticas estanques e aberta a todo o tipo de incursões, a obra de Pedro Tudela tem ainda filiação em processos que se vão repetindo, (re)contextualizando e reconfigurando, como a ideia de erro, acidente, manipulação, apropriação, composição ou fragmento, preocupações que estão muitas vezes no centro da sua reflexão e do seu campo de acção.
A palavra < pre > que titula a presente exposição, aponta, de algum modo, para uma revisitação ou olhar retrospetivo sobre o amplo e multifacetado trabalho artístico já produzido ou “pré-produzido” por Pedro Tudela, ao mesmo tempo sublinha a importância que o recurso a códigos da linguagem virtual, do erro digital e da suspensão da palavra vêm tendo no seu trabalho.
No entanto, a recuperação de peças antigas e originárias de distintos períodos e de outros contextos, capazes de reivindicar, por vezes, a condição site-specific, afastam-na de uma dimensão antológica, já que, na sua recontextualização, na relação com um novo espaço, cada obra, visual ou sonora, indicia uma renovada trama de relações, origina outras leituras, novos contextos.

Jorge da Costa

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